Designices

Provavelmente haja um momento da história do design que você goste mais. Ou uma escola, um movimento, um estilo, tanto faz. E também provavelmente você seja capaz de citar cartazes, objetos, tipografia, cores e outros detalhes dessa sua preferência. Confesso que as minhas mudam com o tempo. Mas sempre tenho algum.

Tenho feito tentativas de categorizar ou identificar como é nosso design atual e não tenho conseguido muito sucesso. O que é efêmero parece tomar conta de quase tudo. Muita coisa rápida, sem planejamento, feitas pra durar por pouco tempo (e não falo de móveis ou veículos, falo de publicações, mesmo). Como será que vão falar do nosso design daqui 50 anos, em 2063? Quais seriam as características? Percebo tudo clean e sóbrio e repentimanete vira muito caótico, grunge, underground (ah, os anos 1990…) e de repente, PLIM!, o clean toma de volta a atenção dos holofotes e tudo volta no começo desse ciclo. Um minimalismo (ou falso minimalismo/minimalismo preguiçoso) as vezes também dá suas caras. A exploração tipográfica anda em alta, os processos de criação parece que têm caído na “Bolsa do Design”. E a proporção áurea, hein? Alguém aí já usou num projeto? Mas seriam essas as características estudadas pelos alunos da década de 2060? Será que algo vai se segurar visualmente até lá, como fez a Maizena nos últimos 150 anos?

Desculpe, acho que soltei uma rajada de perguntas de uma só vez. Uma respiradinha:

Transformers, Estrela, anos 1980

Eu nasci em 1980, consigo mapear o que era visualmente explorado na época, as cores berrantes, o 3D, uma volta ao rétro (sabe qual a diferença entre vintage e rétro?), posso falar dos objetos de desejo da época, os brinquedos, carros, eletrodomésticos, discos, filmes. E hoje? O que temos?

Outro questionamento que faço é sobre vanguarda de hoje, será que o que produzimos é a vanguarda ou serão os suportes (como os smartphone, as tablets, as smart tvs…) que ocuparão esses espaços na história do design? Ainda existe vanguarda? E o design gráfico? Stephan Sagmeister? John Maeda? Gustavo Piqueira?

Em suma: Como você imagina que falarão do design da década de 2010 na década de 2060? Quais seriam os objetos de desejo? Abuse nos comentários!

Não sei se daqui vão sair respostas precisas pra todas essas perguntas, mas eu volto pra esse post aos 83 anos pra conferir. O legal vai ser a discussão e a troca de ideias, como sempre ocorre por aqui. E quem acertar ganha um doce ;)

 

A Referência no Design Gráfico, Editora Blucher
E cada vez mais aparecem bons livros de referências em design. Quem me dera na minha época de aluno da faculdade eu tivesse acesso a 1/4 dessa quantidade de títulos de hoje. Esse, A Referência no Design Gráfico – Um Guia Para a Linguagem, Aplicações e História do Design, da Editora Blucher é um ótimo exemplo disso. As 400 páginas são ricamente ilustradas e ainda por cima bem recheadas de informação. Dá só pra “ver”, dá só pra ler, dá pra ter os dois, que é minha sugestão. Do vintage pro contemporãneo, o impresso, o digital, designers, conceitos, tudo na medida certa. Tem texto suficiente pra você se interessar pelo assunto e na quantidade ideal para que o topico não fique cansativo e você parta logo pro próximo item, linear ou não-linearmente.

Os autores Bryony Gomez-Palacio e Armin Vit dão um breve contexto e mostram imagens de revistas como Emigre, Eye, IDEA, Critique e Esquire. Tem designers como Ladislav Sutnar, Joseph Müller-Brockmann, Paul Rand, Massimo Vignelli, Milton Glaser, Wolfgang Weingart, David Carson. Estúdios como a Pentagram, The Republic Designers e Push Pin. Tem type foundries como a ITC, The Font Bureau, Adobe Fonts, Emigre Fonts, House Industries e Fontshop International. E tem museus de arte e design, tem referências de podcasts e blogs de design, tem o DESIGNICES! Ok… não tem o DESIGNICES, não… Desculpe, me empolguei. E tem cartazes, capas de discos, mapas de metrô, embalagens, revistas, jornais, referências de outros livros… Enfim, dá pra se divertir por um bom tempo com essa publicação. Interessante é ver que além de todas essas figuras carimbadas do design mundial e atemporal também tem outros “menos conhecidos” com ótimos trabalhos. Eu sempre me pego esbarrando nesses nomes e procurando mais a respeito. Alguns foram tão legais que até gastei mais grana em livros a respeito, hehe! Coisas da vida!

Pra mais detalhes sobre o conteúdo:

Sumário

Apresentação
Uma modesta linha do tempo

Princípios
De design (Disciplinas, layout, cor)
De tipografia (Anatomia, genealogia, classificação, composição)
De produção impressa (Métodos de impressão, acabamento)

Conhecimento
Em papel (Periódicos e revistas, livros)
Online (Blogs, fóruns e diários; Arquivos, referências e acervos; Podcasts e rádios online )
Na sala de exposição (Museus, arquivos)
Nas salas de aula

Representantes
De design (1920-1960, 1980-2000)
De formas de letra (Origens, pós-1984)
De escrita
De designers

Prática
Nas paredes (Nas prateteiras, nas bancas de revista, em identidade, em letras)
Nas estantes (Livros, música, produtos de consumo)
Nas bancas de revista
Sobre identidade (Logotipos, programas de identidade)
Sobre formas de letras (Clássicas, inovadoras, novos clássicos, desprezadas)

A sobrecapa pode ser removida pra dar uma espiada nas cores e trabalhos da capa, mas nesse caso é interessante manter: ela é bem resistente e é plástica, não vai rasgar ou amassar fácil.

A Referência no Design Gráfico - Detalhe da sobrecapa

Alguns exemplos de como o conteúdo é exibido e ilustrado nas internas:

A Referência no Design Gráfico - Exemplo de internaA Referência no Design Gráfico - Exemplo de internaA Referência no Design Gráfico - Exemplo de internaA Referência no Design Gráfico - Exemplo de interna

A principal vantagem que encontro nesse livro é, além da qualidade da curadoria e quantidade das referências, elas estão devidamente contextualizadas e definidas, diferente do que geralmente encontramos em livros “somente de referências visuais” que geralmente não nos dão muita chance de procurar ou saber mais, nem entender onde aqueles projetos estavam envolvidos e porque foram feitos.

Esse é mais um título que recebe o “Selo DESIGNICES de qualidade reconhecida;)

“(…) Só em 1808, o Rio de Janeiro recebe sua primeira oficina tipográfica (a tentativa de Antonio Isidoro da Fonseca em 1746 fracassou). (…) esses episódios ‘vade retro’ e a inauguração, os começos e o desenvolvimento que sucintamente relata e que, num certo sentido, é a própria história da política, da cultura e da ciência do Brasil independente.

(…) Já em 1809 era construído um prelo de madeira no Rio de Janeiro, destinado à Impressão Régia; em 1822 contava com 11 prelos e, em ’45, possuía seu primeiro prelo mecânico. Com o tempo, a denominação da oficina foi sendo mudada: ‘Imprensa Nacional’, ‘Typographia Real’, ‘Typographia Régia’, ‘Typographia Nacional’, ‘Régia Typographia’ e, finalmente, a atual que é ‘Departamento da Imprensa Nacional’.” – livro de 1979, do MASP, História da Tipografia no Brasil

Confesso que a primeira vez que vi essa publicação (e criei minha expectativa a partir do título do livro), achei que fosse simplesmente um guia para iniciantes. Mas como fui “pescado” pelo tamanho (23,5 x 30,5cm) e pelas belas imagens, resolvi ler. E me enganei completamente. Ainda bem! A SuzanaYonamine, que me indicou o livro, tava certíssima! O livrão trata da função social, política e econômica do design, se aprofunda o suficiente para ter mais que um simples overview em cada movimento de design e sempre trata das causas e consequências para a sociedede que cada um deles teve. Não sei se “uma introdução” somente é um bom nome, talvez o subtítulo “O design no contexto social, cultural e econômico” fale mais.

O “Design – Uma introdução” é dividido em três partes, na primeira o autor Beat Schneider conta a história, exemplifica, ilustra, compara e a cada capítulo, coloca seu ponto de vista. Sintético o suficiente para não ser chato e profundo o bastante para deixar com vontade de ler mais sobre cada movimento, escola, período. Na segunda parte o papel muda (já que não tem mais imagem) e o que vale são ótimos textos que promovem debates pelos contextos e conceitos de design. Acredito que possam ser aproveitados no ensino do design. A terceira parte é de anexos, tem muita coisa útil, como indicação de livros, revistas e museus pelo mundo.

A seguir o índice do livro:

Parte I – História contextualizada do design

Introdução
1. Industrialização e primórdios do design
2. Crítica à indústria: do Arts & Crafts até o Art Nouveau /Jugendstil
3. Pré-modernismo em Chicago, Glasgow e Viena
4. A Werkbund alemã: entre a arte e a indústria
5. Estilo internacional: construtivismo, De Stijl, Bauhaus
6. Arte de vanguarda e design gráfico
7. Design no fascismo
8. Styling: design nos EUA
9. Os dourados anos 1950 na Europa
10. A boa forma e a Escola Superior de Design de Ulm
11. Swiss style: o estilo tipográfico internacional
12. A crise do funcionalismo
13. Design pós-moderno: Alchimia e Memphis
14. Os loucos anos 1980 e o “Novo Design”
15. A nova simplicidade
16. Revolução digital e design

Parte II – O design no contexto: debate

Introdução
17. Design – Conceitos
18. Design – Identidade corporativa
19. Design – Arte
20. Design – O gosto e o kitsch
21. Design – Terceiro Mundo
22. Design – Gênero
23. Design – Teoria
24. Design – Pesquisa e ciência

Parte III – Anexos

A. Design – Bibliografia
B. Design – Revistas
C. Design – Museus
D. Design – Organizações
E. Design – Índice onomástico

Inclusive eu usei o livro Design – Uma introdução com a definição do Beat Schneider para “O que é design?“. Foi lendo esse mesmo livro que postei “Função do design x função do designer