O Amigo da Onça (1943-1961), por Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

Um dos primeiros contatos que tive com a linguagem de HQs foi com certeza O Amigo da Onça (o outro foi nas revistas do Fantasma), num livro que meu pai comprou nos anos 1970 e que me explicava as piadas sarcásticas, desnecessariamente sacanas e politicamente incorretas do personagem do cartunista Péricles, que saíam na revista O Cruzeiro e faziam o maior sucesso. Mais algumas das charges do malandro carioca:

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

O Amigo da Onça, de Péricles

Todas as imagens das charges foram fotografadas da edição especial Nostálgica do Cruzeiro de O Amigo da Onça:

O Amigo da Onça, de Péricles

Pra quem quer saber um pouquinho mais…

Péricles (Péricles de Andrade Maranhão) nasceu em Recife em 1924 e muito novo, aos 17, foi tentar se aventurar desenhando profissionalmente. Deixou sua cidade e foi para o Rio de Janeiro. Participou das revistas O Guri com seu personagem “Oliveira, o Trapalhão“. Na revista A Cigarra desenhava os quadros “Cenas Cariocas“, “Miriato, o Gostosão” e o próprio “Oliveira“. Mas nenhum desses chegou próximo do sucesso que fez O Amigo Da Onça, que foram desenhados (pelo seu criador) de 1943 até 1961 na revista O Cruzeiro e eram, segundo as pesquisas, a seção mais lida e adorada de todas. Crianças, adultos e idosos se divertiam com o personagem que foi encomendado para expressar na época a essência cotidiana do Rio de Janeiro para todo mundo, inclusive que não morasse lá. Péricles se suicidou em 1961, no último dia do ano, se trancou em casa e deixou o gás ligado. Infelizmente não tem quase nada publicado sobre o ilustrador. Editoras, cadê vocês nessa hora?

E você, lia algo diferente do convencional quando era criança?

História da Tipografia no Brasil

Capa do livro História da Tipografia no Brasil

Sempre ouvimos falar da história da Garamond, Times, Helvetica, dos cartazes construtivistas russos, das belas composições da Bauhaus, entre muitos outros. A maior parte dos livros que temos acesso trata de designers gringos e de ótimos trabalhos projetuais pelo mundo. Mas e aqui na terra Tupiniquim, como essa ‘coisa toda’ aconteceu?

Infelizmente nas livrarias temos poucas coisas que falam diretamente das origens do design brasileiro. O “Design brasileiro antes do design”, de Rafael Cardoso, é um deles. Mas é fora das lojas de livros (novos) que podemos encontrar essa maravilha de publicação do MASP, no final dos anos 1970: A História da Tipografia no Brasil trata em 18 páginas (de texto) um pouco dos primórdios do uso de tipos móveis em território nacional brasileiro contextualizado pelo que acontecia no exterior, fala da repressão que era evidente na época (afinal, o meio mais forte da difusão de ideias eram os impressos). As outras mais de 240 páginas são de referências das publicações da época. E haja referência! São anúncios reais, decretos, certificados, capas de livro, receitas e uma infinidade de outros. A base das imagens é a partir de 1808, quando chegou no Brasil a família real e “trouxe” a Imprensa Régia.
Alguns exemplos das páginas e das imagens:

Folha de rosto do livro História da Tipografia no Brasil

Exemplo de página interna do livro História da Tipografia no Brasil

Exemplo de layout tipográfico do livro História da Tipografia no Brasil

Ilustração do livro História da Tipografia no Brasil

Exemplo de layout tipográfico do livro História da Tipografia no Brasil

Exemplo de layout tipográfico do livro História da Tipografia no Brasil

Exemplo de layout tipográfico do livro História da Tipografia no Brasil

Atualmente é difícil encontrar esse belo livro por menos de R$ 80,00 nos sebos, mas vale uma boa vasculhada. Dá pra tentar também online, no site Estante Virtual e também no Mercado Livre.

Design brasileiro e identidade nacional

Junto com a longa discussão de designers versus micreiros, a procura da identidade nacional ou o design autêntico brasileiro foram temas que tomaram muitas e muitas aulas durante minha graduação, entre 2002 e 2005.
Ok, aceito que é a partir de discussões que a gente resolve (quase) tudo. Só que mais uma vez (a outra era com os micreiros) encontrávamos “papagaios” que sempre repetiam as mesmas coisas. E todos resolviam cobrar a “cara do design brasileiro”. Acho que chegou a hora de perceber que nem todo palheiro vai ter uma agulha pra você procurar.

Qual cara tem nosso design? Aliás, que cara tem o design contemporâneo da Alemanha? E da Itália? E da Suíça? Se fôssemos falar de Bossa Nova, Carnaval, samba, Timbalada e futebol, tudo bem, entendo e concordo que sim, temos algo que é só nosso, único, quase inimitável. Mas e no design? Dá?

Eu duvido. Duvido mesmo. Qual é o Brasil visto de fora? Pelé, Ronaldo Gordo e Tom Jobim? Carnaval do Rio? Baianas? Bem, na porta da minha casa na Zona Leste de São Paulo, onde fui criado, nunca vi nada disso. Nem na pracinha que eu jogava bola. Nem no colégio e nem em lugar nenhum. Você já viu? Você foi criado com todas essas referências sempre presentes?

Como nos últimos dois parágrafos eu terminei com pontos de interrogação, vou parar de criar dúvidas e começar a dar meu ponto de vista. Desde 2002 eu busco saber o que é a tal da identidade do design nacional e nunca achei. Olhava as grandes revistas, não encontrava o poder do design brasileiro, visto que a maior parte delas se inspira (até mais do que deveriam) nas suas “originais” gringas. Olhava os cartazes e não os encontrava. Os websites? Não. Esses sempre são “bem fiéis” aos seus benchmarks. Nem as embalagens, nem os livros. Nem nas aberturas das novelas da Rede Globo (isso foi uma piada!). Pensei que poderiam ser as capas de LPs da Gravadora Elenco, nos anos 1950 e 60. Quem sabe então é a coleção das Revistas Senhor. Pode ser que estejam nas ilustrações de J. Carlos. Não. Nada disso.

Talvez nesse momento você esteja pensando que existe SIM identidades bem definidas em diversos países. E vai deixar nos comentários dicas da facilidade de identificar os projetos alemães da Bauhaus ou então as tipografias suíças. Mas isso não trata da identidade alemã nem suíça e sim de escolas desses países. Elas que tiveram uma identidade. Inclusive, falando de Bauhaus, muitos dos professores foram para os Estados Unidos quando o nazismo acabou com a escola, incorporando suas experiências nos projetos que fizeram por lá. Eram projetos americanos com cara de alemães? Não. Eram com cara da Escola Bauhaus. Da mesma forma temos a “cara” da Pop Art, do Expressionismo, do anti-design do Memphis Studio.

Na editora que trabalho tenho contato com gente de todo o Brasil. De cidades próximas a São Paulo e outras muito distantes. E cada pessoa, seja da mesma cidade que eu ou não, teve suas referências e vivências. O Brasil é um país enorme, que abrange todas as classes sociais e econômicas. Tem lugar com seca e tem lugar com enchentes. Você pode num canto se incomodar com uma geada e noutro com calor 40 graus. E cada lugar tem seus valores, suas tradições e a vista das “portas de cada casa”. E nenhuma porta de casa tem as baianas, o Pelé,  o Ronaldo Gordo e nem o Tom Jobim juntos. Seria possível amarrar todas essas pontas com uma só cara? Repito: Duvido. Afinal de contas, não podemos usar  sempre e somente a paleta da bandeira pra justificar nossa identidade.Nem acho que exista um “design paulista”, um “design carioca” e nem gaúcho.

Acredito que precisamos parar logo com essa necessidade louca de ter identidade nacional e aceitar logo que somos um grande mix de coisas e, dentro dessa mistura, tem um monte de gente que tem seus próprios mixes de conteúdo. Assim como muitos outros lugares do mundo. Eu cresci ouvindo músicas que eu gostava, que minha mãe gostava, que meu pai gostava. Isso me deu vontade de vasculhar antiguidades atrás de outros sucessos e assim aprendi a reconhecer as capas dos discos desses segmentos. E eram bem diferentes das de heavy metal que alguns amigos gostavam. E diferentes por sua vez de um ou outro que curtiam o psicodelismo do Caetano. Ganhei muitas referências visuais com os filmes que assistia, bem diferente por exemplo das que minha namorada tem. E assim vai.

Acho estranho isso não ser escancaradamente assumido. Ou então quem sabe eu esteja errado. Enfim, de posts cheio de imagens os blogs de design estão cheios. Aproveita e coloca tua opinião aí nos comments, concordando ou não.

Alexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil

Muito legal a ideia de fazer um trabalho como esse que fizeram com o Alexandre Wollner. O cara, além de estudar na Escola de Ulm e fazer logotipos pra um monte de empresas que a gente viu a vida toda (como Itaú, Sardinhas Coqueiro…), ele também colaborou com cursos de design no país e participou da inauguração da ESDI, a Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro. Uma entrevista com ele, do jeito que foi feita e contando um pouco da história e opiniões polêmicas a respeito de identidade do design nacional, relação do design com a publicidade, o que é design e muitas outras, couberam direitinho o livro, que vem com um DVD com o vídeo da entrevista.

Sabe aquela história de “Ah, o livro é melhor que o filme”? Então, nesse caso não pode ser aplicado. Além de uma diagramação muito questionável (veja a figura abaixo), ele não consegue ser mais divertido que o DVD porque é praticamente o que está lá, numa ordem diferente, cronológica e com alguns detalhes a mais. Mas de qualquer maneira, é um bom companheiro no ônibus, metrô ou sala de espera. Vale o investimento. O que mais me chamou a atenção foi o catálogo de marcas do Wollner, com imagem de todos os logos que ele fez. Quanto ao DVD… Ah! É daqueles pra você ver sozinho e depois convidar um monte de amigos (preferencialmente designers ou quem tenha algum gosto pela coisa) pra curtir e discutir seus apontamentos. São vários dias no estúdio do Wollner e depois um passeio pela Avenida Faria Lima e Paulista aqui em São Paulo (antes da lei da cidade limpa) e ele vai apontando coisas que ele gosta e não gosta, justificando do seu jeito, com sua bagagem de mais de 50 anos.

Capa do livro Alexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil, da Cosac Naify Será que o próprio Wollner viu essa diagramação antes do livro ser rodado?
Pequeno recorte no catálogo de logotipos de Alexandre Wollner