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Atenção! Manuseie com cuidado. Aqui tem livros de design

Selo "Atenção! Manuseie com cudado. Aqui tem livros de design", nas embalagens da Editora 2AB

Quando recebi o livro “Manual do Freela“, da Editora 2AB, vi algo muito interessante que conseguiu diminuir a ansiedade de devorar um novo livro. Por alguns instantes fiquei refletindo sobre um adesivo colado junto do remetente: Atenção! Manuseie com cuidado. Aqui tem livros de design. Perfeito! Peguei a máquina e documentei. Aí sim, abri a embalagem e “comi” o livro inteiro.

Bem, diferente de um aviso de “frágil” comum em equipamentos eletrônicos, copos e coisas do gênero, ao meu ver essa aparentemente simples ação da editora pode significar muita coisa. E pra muita gente. Numa primeira impressão, vejo que a editora valoriza o conteúdo que vai pro consumidor que pode ou não ser um designer. Em outras palavras, seria como se estivesse escrito “Design não é qualquer coisa, é algo de valor. Aqui tem conteúdo de design“.

Mas afinal de contas, quantas pessoas veriam isso? E quem seriam? Pra que serviria um adesivo desse além de ser engraçadinho?

Pai/mãe vendo esse selo:

Se você é daqueles que lamenta que eles não sabem o que você faz, taí uma boa hora pra parar de tentar explicar o que é e tentar talvez pra que serve. Inclusive acho até que vale ler o livro Morte aos Papagaios do Gustavo Piqueira. Afinal de contas, design está ligado totalmente a questões sociais, culturais e/ou econômicos, não? Isso não lhe parece importante e digno de ser “manuseado com cuidado”?

Familiares ou vizinhos vendo esse selo:

Mesmo aqueles que nem sabem o que é o tal do design (aliás, tenho 9 definições de especialistas num post pra essa questão), poderão imaginar que é algo de algum valor, já que é algo a se cuidar. Pode até ser que eles te perguntem a respeito. É tua chance de se manifestar.

O porteiro, o zelador ou o carteiro vendo esse selo:

Pra esses muita coisa pode acontecer. Desde nao fazer a menor ideia do que se trata até achar que é algo de muito valor que tem dentro do pacote. No caso da segunda opção, eles têm TODA razão, não tem?

Alguém que comprou um livro de presente vendo esse selo:

Talvez isso faça parecer que o livro seja melhor ainda do que ele é. Pode ser que os 30, 40, 80 reais que o sujeito gastou no presente dupliquem o valor quando ele ou ela refletirem a respeito. E a ideia segue: design é algo valioso.

Quem comprou o livro vendo o selo:

Dá pra fazer pensarmais ainda de como legal é ter (mais) um livro de design, de sentir seu cheiro e absorver e botar em prática os novos conhecimentos, de emprestar, dividir o conhecimento, de testar, discordar, comparar experiências. É o toque final antes de você abrir o pacote. Aquilo que vai te encorajar mais ainda a lê-lo o mais rápido e dedicadamente possivel.

E se não for nada disso? E se ninguém pensar em nada ou então nem ver o selo?

Tudo bem. Talvez eu até tenha viajado um pouco nas minhas hipóteses. Mas aí fica valendo o “selo engraçadinho”, mesmo, que já é bem legal. Boa ideia, 2AB.

E pra você? Como encara esse selo?

Manual do Freela

Quando comecei a ler esse livro da Editora 2AB e escrito pelo André Beltrão, ótima indicação da Renata Storck, imaginei que se tratasse apenas de um bom livro para quem tá começando. Aí comecei a lembrar das tremendas vaciladas que eu presenciei e que amigos me contaram que empresas deram na hora de cobrar os jobs e mudei de ideia: O livro é pra todo mundo que pretende cobrar por design nem que seja uma única vez na vida. E quem nunca teve problema em dar preço a um projeto?

O autor trata de tudo, desde os gastos para o desenvolvimento do trabalho, manutenção do computador, conta telefônica, motoboy, aluguel até os possíveis ajustes de layout, controlando o tempo e calculando o valor das horas, tudo com base em quanto o profissional espera receber por mês (e não tabelas de preços utópicos que rolam por aí). E é tudo, bem explicado, com passo-a-passo quando necessário, tem até as tabelas em Excel para facilitar todo o processo e evitar jogar horas de trabalho fora sem perceber (e sem receber!). Como o autor deu várias palestras sobre esse assunto (e disso nasceu o livro), os exemplos que ele conta são todos reais.

Reposicionamento “por posicionamento”

Saber cobrar e se posicionar já arruinou muita empresa de design por aí. Numa dessas milhares eu trabalhei. E eu tive a sorte de lá conhecer muita gente boa, competente. Era uma agência basicamente de e-learning, 45 funcionários, bem instalada, onde o carro chefe eram treinamentos on-line integrado com sistemas de banco de dados complexos, mas também fazíamos sites, hotsites e portais. De lá também saiam materiais impressos, desde livretos até jogos de tabuleiro. Ah, tinham só clientes grandes: bancos multinacionais, redes de hipermercados, rede de lojas de roupas femininas, tudo pra dar certo. Menos a cabeça da dona. Quando eu entrei lá a empresa era vista como o lugar que resolvia os projetos de modo interessante, bem realizados e com prazo e orçamento condizentes. Aos poucos isso mudou. Talvez “aos muitos”.

Me lembro da noite que trabalhávamos e a dona veio feliz da vida, rindo à toa e contando:
- Ah, ganhamos mais uma concorrência! Dessa vez pro Banco XXXXXXXXX!

E contentes perguntamos algo como:
- Nossa, Fulana, que bom! Como ganhamos?

Ela riu de novo, orgulhosa e disse:
- Ganhamos no preço e no prazo! Ah! O segundo que mais se aproximou da gente tava cobrando CINCO VEZES o nosso preço. Ninguém entende como conseguimos fazer com tanta rapidez e cobrar tão pouco!

Mas os funcionários sabiam. E era óbvio: Trabalho porco, varando noites, voltando 500 vezes. E claro, ela ia cobrar R$10.000 por algo que valia pelo menos R$ 50.000. E tava feliz. Por causa desse posicionamento, que também obviamente piorou com o passar do tempo, a empresa foi reposicionada na cabeça dos clientes (que sobraram, os principais foram saindo…): Virou a empresa que resolvia tudo de maneira imunda, cobrava pouco e só ia pegar o resto do resto do que sobrasse de trabalho, ou seja, só coisa chata, ruim. Pouco tempo depois não tinha mais ninguém bom lá. Tudo isso por falta de querer se organizar e pensar um pouquinho com o lápis e o papel na mão. É o mínimo, eu sei, mas muita gente não faz. É o que o livro fala.

E você, conhece algum caso desses, de absurdos na hora de cobrar um job?

O que é design?

Reuni respostas em livros pra essa pergunta, talvez a mais debatida e menos respondida nos cursos de design.

O que é design? Por Alexandre Wollner

O pioneiro do design no Brasil definiu design no livro “Textos Recentes e Escritos Históricos“, das Edições Rosari, página 91:

“Uma definição de design… É muito difícil, porque a evolução da linguagem, dos elementos técnicos é tão rápida que se fala de uma coisa hoje e ela é diferente amanhã. Mas a gente pode dizer que é dimensionar uma estrutura onde todos os elementos visuais nos vários meios de comunicação visual. Não é só fazer uma marquinha sem se preocupar com o comportamento que essa marca vai ter em todo o contexto, não só da indústria, mas também da comunicação visual. Ela precisa estar baseada em toda uma estruturação e prever aplicações bastante coerentes. Essa  é a proposta do design, que não está preocupado com a estética, mas com a função, com materiais, com a ergonomia visual, com aplicações planas e não planas. Deve saber, por exemplo, como uma embalagem redonda se comporta, como ela pode ser fragmentada e como a públicidade vai ser usada dentro dessa estrutura. Um trabalho de design gráfico deve durar no mínimo vinte a trinta anos, Um logotipo não perde a atualidade, e a potencialidade está em torno desse sinal, desse elemento”.

Já no livro+DVD da Cosac NaifyAlexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil” (leia o post) tem um capítulo guardado só pra essa questão. O video a seguir é desse DVD, cedido gentilmente pela sua produtora, a Tecnopop (www.tecnopop.com.br)

O que é design? Por Beat Schneider

O professor de história da cultura e do design define design em sua obra “Design – Uma Introdução. O design no contexto social, cultural e econômico”, página 197, da Editora Blücher:

“Design é a visualização criativa e sistemática dos processos de interação e das mensagens de diferentes atores sociais; é a visualização criativa e sistemática das diferentes funções de objetos de uso e sua adequação às necessidades dos usuários ou aos efeitos sobre os receptores”

O que é design? Por Helena Katz

Do capítulo Corpo, design e evolução, no livro Disegno. Desenho. Desígnio, da Editora Senac:

“Design é a organização das partes de um todo, de um modo que os componentes produzam o que foi planejado. Só que esse arranjo é sempre improvável, seja o design de algo extraordinário ou não. E isso ocorre porque o número de modos pelos quais as partes podem ser combinadas é excessivo. Cada arranjo não passa de uma quantidade enorme de possibilidades. Ou seja, cada arranjo realizado é tão improvável quanto todos os outros, não realizados.”

O que é design? Pelo Dicionário Michaelis

(dizáin) sm (ingl)
1 Concepção de um projeto ou modelo; planejamento.
2 O produto deste planejamento.

O que é design? Pelo Dicionário Houaiss

Rubrica: desenho industrial.
1. a concepção de um produto (máquina, utensílio, mobiliário, embalagem, publicação etc.), esp. no que se refere à sua forma física e funcionalidade
2. Derivação: por metonímia.
o produto desta concepção
3. Derivação: por extensão de sentido (da acp. 1).
m.q. desenho industrial
4. Derivação: por extensão de sentido.
m.q. desenho-de-produto
5. Derivação: por extensão de sentido.
m.q. programação visual
6. Derivação: por extensão de sentido.
m.q. desenho (‘forma do ponto de vista estético e utilitário’ e ‘representação de objetos executada para fins científicos, técnicos, industriais, ornamentais’)

Locuções
d. gráfico
Rubrica: desenho industrial, artes gráficas.
conjunto de técnicas e de concepções estéticas aplicadas à representação visual de uma idéia ou mensagem, criação de logotipos, ícones, sistemas de identidade visual, vinhetas para televisão, projeto gráfico de publicações impressas etc.

Etimologia
ing. design (1588) ‘intenção, propósito, arranjo de elementos ou detalhes num dado padrão artístico’, do lat. designáre ‘marcar, indicar’, através do fr. désigner ‘designar, desenhar'; ver sign-

O que é design? Por Mônica Moura

Na página 118 do livro “Faces do Design” (leia o post) das Edições Rosari, a designer, artista plástica, mestre e doutora Mônica Moura define:

“Design significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa designar. É trabalhar com a intenção, com o cenário futuro, executando a concepção e o planejamento daquilo que virá a existir. Criar, desenvolver, implantar um projeto – o design – significa pesquisar e trabalhar com referências culturais e estéticas, com o conceito da proposta. É lidar com a forma, com o feitio, com a configuração, a elaboração, o desenvolvimento e o acompanhamento do projeto”

O que é design? Por Vilém Flusser

Em “O mundo codificado“, da Cosac Naify , o autor define primeiro a palavra design como verbo e substantivo, na páigna 181:

“Em inglês a palavra design funciona como substantivo e verbo (circunstância que caracteriza muito bem o espírito da língua inglesa). Como substantivo significa entre outras coisas: ‘propósito’, ‘plano’, ‘intenção’, ‘meta’, ‘esquema malígno’, ‘conspiração’, ‘forma’, ‘estrutura básica’, e todos esses significados estão relacionados a ‘astúcia’ e a ‘fraude’. Na situação de verbo – to design – significa, entre outras coisas ‘tramar algo’, ‘simular’, ‘projetar’, ‘esquematizar’, ‘configurar’, ‘proceder de modo estratégico’. A palavra é de origem latina e contem em si o termo signum, que significa o mesmo que a palavra alemã Zeichen (‘signo’, ‘desenho’). (…) ”

Depois, Flusser explica o que se tornou o vocábulo design, na página 184:

“(…) design significa aproximadamente aquele lugar em que arte e técnica (e, conseqüentemente, pensamentos, valorativo científico) caminham juntas, com pesos equivalente, tornando possível uma nova forma de cultura”

O que é design? Por Lucy Niemeyer

O livro da Editora 2ABDesign no Brasil: Origens e instalação” tem um capítulo só pra origem e significado do termo design. Na introdução do capítulo a Doutora Anamaria de Moraes cita a própria Lucy definindo design:

“(…) ao longo do tempo o design tem sido entendido segundo três tipos distintos de prática e conhecimento. No primeiro o design é visto como atividade artiística, em que é valorizado no profissional o seu compromisso com artífice, com a fruição do uso. No segundo entende-se que o design como um invento, um planejamento em que o designer tem compromisso prioritário com a produtividade do processo de fabricação e com a atualização tecnológica. Finalmente, no terceiro aparece o design como coordenação, onde o designer tem a função de integrar os aportes de diferentes especialistas, desde a especificação de matéria-prima, passando pela produção à utilização e ao destino final do produto. Neste caso a interdisciplinaridade é a tônica. (…) estes conceitos tanto se sucederam como coexistiram, criando uma tensão entre as diferentes tendências simultâneas.”

O que é design? Por John Heskett

Citado por Dan Saffer, no livro Designing for Interaction – Creating Smart Applications And Clever Devices, editora New Riders, página 6:

“Design is to design a design to produce a design”*

* Pela brincadeira e pelo trocadilho com o termo design, eu não poderia traduzir essa definição para não perder o sentido

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A intenção é sempre atualizar esse post com as definições que cruzarem meu caminho. Mas me diga, você tem alguma definição pra o que é design? Discorda de alguma das que eu selecionei? Então deixa nos comentários! :)

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Função do design x função do designer