Designices

Paradigmas gráficos do design pra web

11/05/2011

Tenho me incomodado com alguns padrões visuais adotados pra web que não são questionados, nem revistos, sobrevivem ao tempo e ninguém faz nada. Já questionei os grids de 960px algum tempo atrás e agora vou colocar em jogo alguns outros desses hábitos gráficos aparentemente inexplicáveis:

Wikipedia

Paradigma: Wikipedia

Decerto que é um dos projetos colaborativos que mais me agrada. Confesso que quando ouvi falar de Wikipedia eu jurava que não daria certo e ainda bem que me enganei. Hoje podemos “confiar” mais em seu conteúdo, checar as fontes das informações e ter um aprofundamento maior sobre os assuntos. Por falar em assuntos, tem absolutamente TUDO lá e está sempre bem rankeada nos buscadores. Além de ser esse projetão bacana, a Wikipedia é livre e também foi replicada em diversos outros sites, mesmo funcionamento, mesmo layout, pra servir como glossário, guia, manual etc. O que ninguém muda é o layout da Wikipedia. Talvez, em 2001 quando foi criada pros monitores de resolução 800×600 ou 1024×768, funcionasse. Hoje, com quase 2000 px de largura, os textos ficam ilegíveis. Quase QUARENTA palavras por linha: certeza que o eterno Jan Tschichold morreria do coração ao ver isso.

Orkut

Acho um projeto revolucionário (no seu tempo), acredito que por conta dele muita gente aprendeu a navegar na internet e ter consciência das mídias sociais. Já forneceu muita audiência pra grandes e pequenos sites. Me lembro que o primeiro topo de acessos que um site sobre São Paulo (que eu trabalhei por 2 anos) foi através do Orkut, quando rolou uma discussão entre fãs do Radiohead e do Iron Maiden por causa de uma matéria do site. Discussões nas comunidades apontavam o link pra matéria, negando, questionando, xingando, elogiando, tudo. O Orkut ainda é bem significativo (por incrível que pareça) pra muitos sites de grandes empresas, mas aos poucos ele perde espaço pro Twitter e Facebook, principalmente. Diferente do que muitos pensam, não dá pra simplesmente abandonar o Orkut porque gostamos mais do Facebook ou porque, redundantemente, ele foi “orkutizado”. De qualquer modo essa grande comunidade nunca foi boa referência de design. Ainda mais agora, totalmente perdida, tentando beber da água do Facebook (que é visualmente limpo, direto) mas misturando animações desnecessárias, títulos e fotos que gritam com o público. Se funciona para o seu público? Não sei… mas sei que o visual não me agrada nem um pouco.

Always Beta

Uma das frases que mais sinto medo é “Sobe assim mesmo, depois a gente arruma…”. Antes de qualquer coisa: Eu acredito no Always Beta, quando ele é feito de modo inteligente. O que seria um modo inteligente? Bem, imaginem um jornalista chegar com um texto sem acentos nem pontuação e tudo em caixa alta. Alguém diria “sobe assim mesmo depois a gente arruma”? Com certeza não. Acredito que o Always Beta pra design seja do mesmo jeito: Não subir qualquer coisa indepentende de como esteja. Acredito no mínimo de dignidade de um layout, mesmo que seja o “mínimo do mínimo”, mas que atenda uma demanda sem passar vergonha ou trazer problemas diretos aos usuários.

Twitter

Esse microblog mudou muita coisa na vida de muita gente. Hoje vejo tweets incontroláveis saindo dos celulares nos cafés, restaurantes, parques, ônibus, metrô, todo lugar. Cartões de visita que ganharam um “campo” a mais com o username do twitter. E tem gente que vende tuitada, que retuita tudo dos famosos, que sabe das novidades por conta dos #TTs. É como uma grande mesa de bar onde tem gente conversando de tudo. Além disso, o acesso ao API do Twitter proporcionou que desenvolvedores fizessem infinitas ferramentas pra ele. Aí começa o paradigma. O Twitter tem uma cara infantil, fofinho, como a Pucca ou a Hello Kitty. Até aí tudo bem, porque nem sei se passou pela cabeça dos criadores que seria tamanho sucesso. Mas a maioria esmagadora de ferramentas pro microblog (e as vezes até ferramentas que não se limitam a ele) usa a mesma identidade dele, não importa pra que sirva. O logo é com uma tipografia similar, com aparência de cópia mal feita. As cores sempre em tons de bebê. Projeto gráfico pra quê, né? Pra mim parece que junto com a API as equipes também se davam o direito de se apropriar do visual da ferramenta. Um ótimo exemplo disso é o TwitPic:

Paradigma: Twitpic

Tem o TwitCam, que além de problema de projeto gráfico também tem problema com o nome. Se “tweet” é um “pio”, um texto curto como se propõe, como poderíamos ter isso numa transmissão de vídeo de uma hora?

Paradigma: Twitcam

O Foursquare, que não usa os mesmos elementos do Twitter no logo, mantém os tons bebê nos layouts:

Paradigma: Foursquare

Ainda bem que tem gente que foge dessa armadilha, como o Instagram:

Instagram

Além do problema de falta de projeto existem também a amarra com o do Twitter. Nessas últimas semanas o Twitter ficou com a home bem séria, com mais cara de empresarial:

Twitter

E agora, o que farão os “chupinhadores de layout”? Manter o antigo ou mudar tudo pra ficar igual ao novo? #fail

HTML 5

O HTML 5 é bem interessante, vai permitir mudanças visuais na web como um todo, mas só será totalmente homologado daqui uns anos. O problema é que agora tudo “tem que ser HTML 5″ (mesmo que seja apenas um HTML 4 + javascript e tratado como 5 como vi algumas vezes). Além de testar a linguagem, não consigo entender o motivo dessa necessidade tão doentia. Fiz o redesenho de um grande portal de tecnologia que estaria integrado com um monte de coisas, na  nuvem e complexo banco de dados e todos queria fugir por tudo do HTML 5:

“- Enquanto não tiver devidamente homologado eu não me meto nessa, não. Não vou arriscar meu conteúdo só pra ter HTML 5″, dizia o especialista do site.

Muitas vezes uma animação simples feita em uma tarde no Flash resolveria o problema e teria sua manutenção muito mais fácil. E levaria uma tarde, invés de uma semana. Claro, as decisões da Apple pro iPhone, iPod e iPad não rodarem essa ferramenta da Adobe pode influenciar totalmente nessa decisão. Mas não estou defendendo o HTML 5, nem o Flash, nem nada. O que defendo é o uso consciente disso tudo, se é ou não pertinente, se vale ou não a pena fazer em HTML 5. Se for pra um público Classe C ou D, se for pra rodar em escolas públicas do interior do interior de algum estado, que talvez não tenham um browser devidamente atualizado e não tem a necessidade de ver em gadgets da Apple, não teria porquê fazer em HTML 5. Tudo depende, como sempre, do público alvo. Daqui uns anos, como a parte que falo do Orkut, esse texto do HTML será descartável, mas até lá brigo pelo bom uso das ferramentas. O ferramental não pode ser um paradigma, precisa ser solução.

Facebook

http://facebook.com/designices

O Facebook mantém uma linha visual bem simples e bastante eficaz. Azul, branco e preto, se encaixa em quase todos os projetos, já que essas cores foram absorvidas como algo comum na experiência dos usuários. O “quase todos os projetos” é algo interessante de questionar. Já vi o Facebook reclamar quando houve uma tentativa de mudar um mínimo detalhe do box de “curtir” a página. E quando o azul simplesmente não for algo bem-vindo? Me lembrei da rivalidade entre os times de futebol Sport Club Internacional (também conhecido como Inter de Porto Alegre) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. O primeiro, apelidado de Colorado, usa vermelho e branco pra tudo. O segundo compartilha das mesmas cores do Facebook. Será que o Internacional usaria um box do Facebook em seu site? Duvido. TUDO é vermelho lá:

Imagem de abre do site do time Internacional de Porto Alegre

Home do site do time Internacional de Porto Alegre

 

Nesse caso, ou o Facebook se deixa modificar ou o site abre mão da identidade pra ter o serviço de compartilhamento que essa mídia social proporciona. Quem vence? Não sei, mas o design pode perder.

Esse post foi inspirado no material que produzi pra exposição do tema “Como fugir das fórmulas prontas de design nas redes?” na faculdade Cásper Líbero, no evento de lançamento do ebook “Para entender as mídias sociais(baixe grátis), organizado por Ana Brambilla (veja seu blog | siga no twitter @anabrambilla). As fotos a seguir são do evento e foram gentilmente cedidas pelo fotógrafo Pedro Brum de Mello (pedrobmello[arroba]gmail.com) :

Apresentação do tema "Como fugir das fórmulas prontas de design nas redes?", na Faculdade Cásper Líbero. Foto: Pedro Brum de Mello

Apresentação do tema "Como fugir das fórmulas prontas de design nas redes?", na Faculdade Cásper Líbero. Foto: Pedro Brum de Mello

E vocês, o que acham? Quais outros paradigmas gráficos do design de web podemos citar? Deixem nos comments! :)

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12 comentários:

  1. Em tempos nos quais até a grande Coca-Cola adapta sua latinha para cores agradáveis ao seu público (caso do Amazonas, Bois de Parintins, acho que todo mundo já viu né?), manter esse tipo de paradigma é quase perigoso.

    Manter o visual dos aplicativos semelhantes ao SIV do twitter eu vejo mais como uma tentativa de manter a ligação com a rede do que propriamente preguiça de criar um SIV próprio…

    Quanto ao visual do orkut, sem palavras. Ainda uso a versão antiga, e sinceramente, sinto saudades do leiaute bem mais simples (quando ainda podia colocar no máximo nove fotos, lembram?). Não fechei ainda por causa de algumas pessoas, mas tá bem paradinho.

    Dá pra notar que não trabalho com web, né? rsrs… mas sou usuária hard, do tipo que passa mais horas do dia navegando que qualquer outra coisa, então me dou o direito de dar pitacos =)

  2. Oi Rogério!
    Bom, confesso que antes de participar do evento na Cásper, no qual você abriu essa discussão, eu nunca tinha parado pra fazer um apanhado dos layouts dessas redes.
    O máximo que tinha era uma dificuldade pra captar as informações no Wikipedia, por conta da bagunça visual que é aquilo (se é que pode-se chamar assim) e talvez um incômodo com o novo layout do Orkut.
    Não sou designer nem sou muito entendida na área, portanto essa discussão me fez entender que realmente não há uma preocupação efetiva no que diz respeito aos públicos que utilizam cada redes e qual seria o estilo ideal para montar um layout em cima de cada uma (é o caso do Twitter, por exemplo que vc havia citado que tinha um layout “Pucca”, “Hello Kitty”).
    Bom, acho que é isso! Excelente exposição e stand up (volto a dizer). Hehe! Vc abordou o tema de uma forma tão natural que até quem não manja bolhufas de Deisgn entendeu qual era o ponto da discussão.
    Será sempre bem-vindo em nossa facooldade!
    Até mais.

  3. Cara,
    Esse post pra mim é uma quebra de paradigmas.
    Você coloca umas questões que eu nunca tinha pensado, como por exemplo o padrão dos boxes de curtir do Facebook. Com certeza se o Facebook fosse verde, o Corinthians tb jamais utilizaria em seu site.
    A questão da customização que todos falam… “Ah tudo é personalizável e customizável” é mentira. Toda marca quer imprimir sua identidade seja lá onde ela esteja.
    Lembra daquela palestra que fomos que falava do Mac Donalds, onde os caras eram iguais no mundo todo e depois de começar a perder mercado tiveram que começar a se adaptar de acordo com a cultura de cada país/região?
    Pois é, a experiência do usuário também depende de onde ela está inserida e o valor que aquele visual tem para ela. Olha só o Twitter, com cara de site empresarial! Caraca, o que é isso?
    E realmente, o Instagram fugiu desse vício e adotou a sua cor, a sua tipografia, que é o que tem mais a ver com o conceito na minha opinião.
    O resto, vai de azul (inclusive as cadeiras do auditório da Casper!) rs.

  4. Puxa, que blog maravilhoso! Como eu pude passar tanto tempo sem conhecê-lo?
    Já foi paro os meus favoritos!
    abs,

  5. Oi, Tereza!
    Olha, levando em conta que os sites que falei “não são feitos pra designers que trabalham com web”, e muito pelo contrário, tem um público alvo muito amplo, todos poderiam pitacar, ainda mais ti, acadêmica, sempre tem como colaborar com os posts! Ainda mais hard user de internet, show.
    Nanna, a ideia da palestra da Cásper foi tentar trazer meu universo pra mais próximo do de vocês, o pessoal do jornalismo, publicidade, rádio e TV e mais quem tivesse lá que não fosse designer. Como comentei no início da palestra, além de interndisciplinar no desenvolvimento de seus produtos, o design também precisa ser integrado (e bem integrado) com as áreas que o cercam. Lembra quando falei do “casamento do design com o jornalismo, mkt, pp…”? É isso. Sem esse casamento não dá.
    Marquito, você é minha inspiração em uma cacetada de coisas. Eu nunca penso numas coisas dum lado, você não pensa em coisas doutro, a gente junta tudo e faz um projeto junto, o que acha? =D
    Thatiana, obrigado pela visita e pelo comentário. Vira-e-mexe eu cutuco algumas coisas “intocáveis” do design. Tem gente que me odeia por isso, hehe! E a vida segue. Te espero de volta em mais comentários, viu?
    Abraços a todos!

  6. Show de Bola o seu blog, cara!
    Pô, ainda bem que com fotografia não existe versão beta! rsrs
    abraços!
    JC

  7. Assisti sua palestra na Cásper, e além de aprender com as questões que você levantou, muitas que nunca havia me questionado antes, me diverti bastante.
    Apesar de ser aluna da graduação de Relações Públicas, e poucos dos palestrantes terem citado que esse profissional também lida diretamente com mídias sociais, enxerguei muito do meu curso na palestra. E por ter feito um curso técnico em design gráfico, mesmo não exercendo essa atividade, reconheço a importância dele em qualquer projeto de comunicação, e vou trabalhar para que ele seja cada vez mais reconhecido. A identidade visual é fundamental para a atividade de relações públicas e vou trabalhar para que o profissional também seja valorizado (e mais citado nas palestras rs).
    Parabéns pela palestra Rogério, você ganhou uma fã!

  8. Oi Rogério, lembrei de mais um exemplo cujo design poderia ser repensado: Bluebus. O conteúdo é bom e bastante visto, especialmente pelo pessoal de comunicação, mas o design me incomoda profundamente. Alguém poderia dar uma bela repaginada nele, não acha?

  9. Oi, Cynthia!
    Pois é… o Blue Bus dói o pâncreas de tão ruim. Eu não tenho nada contra o “layout” do saco do pão da padaria de bairro onde tá escrito “servimos bem para servir sempre”… talvez não seja interessante pro dono da padaria investir grana nisso, ou talvez nem faça muita diferença pro público. Mas o Blue Bus é grande, precisa ser lido, ele dá “shots” de conteúdo, geralmente é um texto curtinho… poderia ser um bom “shot”, né?
    Valeu pelo comentário!
    [ ]s!

  10. Mestre, isso tudo faz parte de prestar um bom serviço!
    O ato de “sobe assim mesmo que depois arrumamos” é um crime contra a inteligência do usuário.
    Sem dúvida o design e a inteligência dos sistemas e materiais deveria ser algo planejado com antecedência suficiente para não necessitar de remendos!
    Excelente texto e esperamos que dê “uma luz” para todos que trabalhar dessa forma torta e incongruente.
    Abraços de toda a nossa equipe!