Designices

Os “espaços em branco” da vida real: Cadê?

16/05/2012

É de comum conhecimento que produtos com espaços coloquialmente chamados de “áreas de respiro” se fazem mais confortáveis visualmente para quem os consome, assim como podem proporcionar melhor percepção, entendimento e até interação, seja uma revista, um livro, um controle remoto de home theater ou um smartphone. Uma oferta muito grande de opções pode gerar confusão ou desvalorização do todo. O Mc Donald’s, por exemplo, notou lá no comecinho que se simplificasse o cardápio e padronizasse os sanduíches evitaria que os clientes tivessem dúvidas na hora de fazer o pedido e o atendente da cozinha, por sua vez, teria menos dificuldade de prepará-lo (quem quiser saber mais sobre isso dê uma olhada no livro Design de Negócios, de Roger Martin, Editora Campus. O John Maeda, em uma de suas Leis da Simplicidade, fala sobre reduzir o número de itens, só mostrar o necessário e eu sou adepto disso, acho que dá pra notar aqui no DESIGNICES a valorização do espaço em branco para a pausa, reflexão, pra retomar o pensamento e, quem sabe, arriscar um comentário. Já até fiz um post só pra falar da falta de espaços em branco na internet.

Mas e na cidade em que moramos, como isso tem se mostrado?

Tem cinco anos que aqui em São Paulo uma lei chamada Cidade Limpa removeu a poluição visual pelas ruas padronizando as fachadas e proibindo outdoors, faixas e afins. O Marco Moreira mostrou bons exemplos disso, vale conferir aqui e aqui. E o Rio de Janeiro tá entrando nessa também, para a alegria dos olhos de quem passeia e nota a cidade, sem parecer que você mora num jornal de classificados.

Acontece que se por fora houve o suposto cuidado de não nos soterrar com marcas e anúncios, aos poucos, os ambientes internos estão cada vez mais lotados de informação como se fosse pra compensar o que se proibe nas ruas. Não tem mais momento de reflexão no que foi visto, não tem mais pausa pra pensar na vida: sempre há algo pra ver, além dos smartphones pipocando notícias, emails e alertas de redes sociais em tempo integral. E esse último “sempre” usado acima se torna cada vez mais, infelizmente, quase que literal.

Perceber como a cultura visual das pessoas pode apodrecer com tamanha quantidade de informação me preocupa. Acredito até que de alguma forma prejudique nossa profissão, já que a desvalorização da exclusividade de informação (seja ela qual for, até mesmo a publicitária) tende aumentar já que segundos depois algo novo toma o lugar do que, precocemente, vai ser chamado de antigo. Em trinta minutos caminhando na hora do almoço mais de uma dezena de informações foram metralhadas na cara dos “usuários da cidade”. Impossível lembrar da primeira, da segunda, da quinta. O Metrô, que era limpo visualmente, tem até propaganda na catraca. Elevadores tem a atenção dividida entre as tvs com anúncios irrelevantes e emails (duvido que tão urgentes assim que não podem aguardar até a chegada na mesa) nos iPhones, Blackberries e Androids. Telas nas praças de alimentação. Nem escada rolante escapa mais. Tá difícil a coisa, viu?

Para mostrar o que me refiro, saí caminhando na hora do meu almoço e dando cliques com o celular (por isso as fotos não estão lá essas coisas) o que vi em poucos metros. A sobreposição e acúmulo de informações além da falta de cuidado com elas me assusta e tenho certeza que muita gente não dá mais conta disso porque foi acostumando e agora parece tudo normal, por mais absurdo que pareça.

No Metrô Linha Amarela de São Paulo, o mais nova da cidade, a sinalização é muitas vezes feita assim, com pincel atômico, com rasura e papel colado por cima. Bem legal para uma obra de tantos milhões investidos.

Cartaz de sinalização do Metro Linha Amarela

Os elevadores (à esquerda), dos poucos lugares que as pessoas não tem pra onde correr, tem telas pra tomar a atenção. E um roubo de atenção mais que idiota, nesse caso é pra falar das tais fotos roubadas da Carolina Dieckmann nua. Ao passar na catraca do Metrô (à direita) tem publicidade aplicada, afinal de contas é muito gostoso tomar iogurte na multidão.

Fotos da Carolina Dieckmann e publicidade na catraca do Metro

Essa sequência de três telões frente-e-verso (acima) mostrando as mesmas imagens é totalmente desnecessária. Por que não um só? Depois dos telões (abaixo), uma tremenda confusão de foco de informação: Sinalização do shopping no alto, telão gigante no meio e placa no chão com o horário de funcionamento (e além de tudo você tem que descer uma escada). Shopping Nações Unidas / Shopping D&D, São Paulo.

Sequência de telões no Shopping Nações Unidas

Na hora do almoço nem o cardápio escapa: O Bar da Devassa na região da Berrini, em São Paulo, remenda os preços com etiquetas à caneta. Coisa linda de fazer quando se está cercado de grandes empresas e hotéis caríssimos.

Cardápio remendado do Bar da Devassa, na região da Berrini, São Paulo

No caminho pro cafezinho um estupro visual: Escada rolante inteira envelopada da HP. Pra quem a desce não dá mais pra ver a arquitetura do lugar nem o jardim: banner da mesma campanha tapa toda a visão.

Escada rolante com publicidade da HP

Tomar um café, relaxar e se preparar para o famoso “segundo tempo” também não escapa do acúmulo de informações. Além das telas, na mesa também tem tentativas de vender mais. Essa é da Ofner.

Café com publicidade na mesa, na Ofner

Claro que existem mais N exemplos, mas acho que já dá pra parar por aqui.

Bom, pelo menos na região central/comercial aqui em São Paulo a coisa anda assim, feia. Imagino que uma hora isso vai transbordar e algo precisará ser feito. Enquanto isso não ocorre você poderia deixar nos comentários:

1. O que acha dessa enxurrada de informações?
2. Onde ir pra ter um momento de “área em branco”?
3. Como isso pode influenciar na nossa profissão?

Manda bala, tem bastante espaço em branco aqui embaixo pra você refletir ;)

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9 comentários:

  1. Excesso de estímulos é um dos principais gatilhos para a minha enxaqueca. E muitas vezes, eu nem mesmo me dou conta de que esses estímulos não se restringem a sons e luz, mas os visuais também parecem superaquecer o sistema da cabecinha aqui.

    Daí você imagina, eu que não posso aproveitar o tempo nos ônibus para atualizar a leitura com algo prazeroso, sou forçada a ver todos esses anúncios, em todo lugar…

    Tudo bem, enquanto docente no curso de DG, até recomendo aos alunos que passem a prestar atenção no trabalho alheio, porque alfabetismo visual também se faz por observação. Mas era pra ser uma observação voluntária, buscando rótulos e panfletos e revistas; e não essa visualização compulsória de anúncios e informações pra todo lado!

  2. Muito bom o post.
    Com a proibição de propagandas externas por meio da “Lei Cidade Limpa” da Prefeitura de São Paulo, os publicitários e designers se vêm obrigados a fazer publicidade interna no metrô, shoppings, terminais rodoviários e etc… E muitas vezes acabam cometendo esse equívocos.
    Será que teremos que esperar pela “Lei Interno Limpo”? :P

  3. Epa, o designer e o publicitário obrigado a fazer propaganda em espaço interno? Ué, propaganda virou intervenção urbana? Achei que alguém vendesse o espaço, e que quem comprasse fosse o cliente do designer e do publicitário…

  4. Muito importante o tema do post, serve de reflexão para o papel social da profissão dos designers e demais profissionais da Comunicação. Embora a questão social não esteja nos objetivos comerciais, da maioria da empresas, afinal o que visam é o lucro.

    Creio que não somente essa Lei, aí em São Paulo, obriga esse excesso de informações a ir a diversos lugares onde o consumidor esteja, vale ressaltar que é tanta informação que o pessoal quer se destacar e concorrer na visibilidade colocando anúncios em mesas de café, escadas rolantes… ganha quem está no Top of Mind (à força). Comparo com as pichações das cidades: as gangs ou o pichador mais conhecido é o dono da área.

    Para mim o que tem que seguir é o bom senso, mas muitas vezes esquecido e que não ajuda pagar as contas no final do mês.

    Pra onde ir? Talvez num parque a “area em branco” esteja mais evidente, mas até lá existe lixeiras e placas com anunciantes, pelo menos aqui em Brasília e creio que seja mais em São Paulo.

    Brasília é tombada pela Unesco e nem por isso impediu a poluição visual e o governo teve que criar um Plano Diretor de Publicidade para regular o excesso de informações na cidade.

    Isso reflete direto em nossa profissão, mas cada escritório, agência precisa rever seus valores enquanto agentes de influência na sociedade, mas como falei: as contas chegam e alguns dão maior atenção ao capitalismo de fato.

  5. Ótima reflexão. Afinal, onde estamos indo com tanta pressa? Parece que precisamos ver tudo, saber de tudo e não podemos perder tempo em lugar nenhum… E pra quê? Onde estamos indo com tudo isso? Qual é a “linha de chegada”?

    Todos querem muito, querem mais, e querem agora, como já cantava o Queen. Muito mais do que “mau design”, isso está na psicologia humana. Essa chuva de estímulos visuais apenas reflete algo que já está em nós.

    Não estou dizendo que isso é “certo”, apenas que é natural. Às vezes é necessário lutar contra a natureza humana.

  6. Eu costumava almoçar em um restaurante que resolveu vender o espaço daquelas toalhinhas de papel que vão sob o prato para publicidade.

    Toda vez que eu ia lá, minha primeira atitude era virar a tal toalhinha de cabeça para baixo, com o lado em branco para cima. Terrivelmente desconfortável comer cheio de poluição visual.

    E nos shoppings, eu não sento em mesas com propaganda aplicada no tampo. Se for em restaurante, eu me recuso a comer lá.

    Publicidade tem limite!

  7. É, sem lei esse país fica a Deus dará. Todo mundo coloca anúncio onde quer e é isso, não existe limites. Depois da lei cidade limpa muita coisa melhorou na parte externa.
    Na época foi polêmico e tal, mas se os outdoors ainda fossem permitidos hoje teríamos os outdoors na rua somada à essa poluição visual que vc mostrou aqui. “Um pouco” pior, né?

    Não dá nem para assistir futebol em paz. Já viu a infinidade de propaganda de marcas que as camisetas dos times agora tem? Em alguns times nem a bunda escapa.
    No ônibus tem anuncio até no teto, dentro do metrô nem se fale.

    Uma vez estava pesquisando umas bikes quando vi uma Caloi. Então contei quantos “caloi” tinha escrito no guidom de uma bike. Achei 6 (seis vezes!) Pra que?. Descobri também que os adesivos eram “chumbados” na pintura, ficavam embaixo do verniz. Assim para “limpar” a magrela de tanta poluição seria necessário pintá-la. Brochei total e desisti de vez de comprar Caloi. É horrivel.

    Eu tenho tentado a cada dia a excluir o que de fato não é necessário. Avisos de aplicativos no celular, apps do facebook, assinaturas de pessoas que só divulgam piadinhas, programas de TV que não me acrescentem nada e sites que são entupidos de banners.

    Indo na linha mais filosófica da coisa, meio o que o(a) Haras falou, também penso que a “noção” da coisa já se foi. Os empresários e empregados não pensam no social, no que não faz bem à cidade e as pessoas, pensam apenas em ganhar, ganhar cada vez mais sem pensar no coletivo e nas consequências disso tudo.

    E é por essas e outras que um blog como este (preto e branco e sem publicidade) faz tanto sucesso. Estamos carente de menos informação. OBRIGADO por me dar um pouco de descanso! =)

  8. Roginho!!!

    É talvez nesse sentido que percebamos que algo mudou ao nosso redor. Não é tão simples perceber a nossa imersão num mundo tão cheio anúncios e ataques de marketing, onde cada vez não há áreas de branco/descanso. Talvez vendo como mostra o Marcos Moreira no link q vc passou que é possível ver a diferença de como era antes em contraste de como é hoje.
    Talvez exercitando o branco no trabalho do dia a dia é percebamos que algo mudou.

    Tem um outro video que eu acho q se encaixa bem nessa discussão: Kapitall : https://vimeo.com/4745924
    (chega a dar náuseas vendo o video…)

    Obrigado por lembrar que o branco continua ali ainda…