O “visual designer” e o panachê de legumes

Panachê de legumes Me surpreendi a primeira vez que vi. Lá no restaurante a quilo que eu almoçava não tinham mais os deliciosos legumes no vapor. Simplesmente desapareceram da bancada. No lugar dele tinha um tal de panachê de legumes. Caceta, como eles se pareciam visualmente. Arrisquei e, com o pegador, me servi de uma pequena porção, seja lá o que fosse. O sabor era exatamente o mesmo dos famigerados legumes no vapor. Com o passar do tempo resolvi aceitar o novo nome e almoçava normalmente, como se nada tivesse ocorrido. Mas, de certa forma, ocorreu. Não sei qual foi o fenômeno, mas LEGUMES NO VAPOR, talvez, não parecesse tão gostoso quanto PANACHÊ DE LEGUMES. O mesmo aconteceu quando o meu pai comeu a primeira vez um filé de saint peter. “Que nome é esse? Isso é tilápia“, reclamava meu bom e velho genitor. É, Seo Rodolfo, é tilápia vermelha, sim, daquelas que a gente pescava no sítio do Mirto em Cambuí (MG), lembra? Sei lá que infernos ocorreram no planeta e PIMBA!, tilápia sai de campo e entra de volta, com gel no cabelo e decidiu ser chamada de saint peter. E “ai” de quem não chamar assim.

Meu finado e saudoso cachorrinho, o Leitão, nasceu cachorro em 1991 e morreu cachorro em 2009. Tem alguns por aí que nascem cachorro e misteriosamente se transformam em pet. O creme de abacate se transformou em creme de avocado.

Esses tempos eu descobri que mudei de profissão sem ter feito absolutamente nada. Isso mesmo. Num dia eu era designer, especializado em mídias digitais, de repente noutro eu era “visual designer” ou “front end design”. HEIN? Me querem disfarçar de saint peter, me querem de panachê de legumes. As vezes os termos ganham subdivisões estranhas. Oitocentos trilhões de divisões no rock tipo heavy metal. Todas as variações da Igreja Presbiteriana. Os legumes no vapor e o panachê de legumes. São citados como outros seres, quase alienígenas, parecem algo totalmente novo, que não fazem parte do mesmo império, domínio, reino, filo, classe, ordem, família, gênero nem espécie, como diria nosso amigo Lineu e sua taxonomia marota.

Ok, ok, aceito, as segmentações são necessárias conforme as mudanças ocorrem e, como temos infinitas mudanças dessas por ano, é aceitável que algumas subdivisões apareçam. Uma ou outra. Só. Agora tá uma festa. A festa das terminologias felizes que muitas vezes não são bem explicadas nem por quem ocupa as vagas, nem por quem contrata. Dá uma olhada no número de vertentes que tem dentro do design de interaçãoarquitetura de informação, designer de interação, human-interection designer… Talvez um dia cheguemos no que disse Alexandre Wollner muitos anos atrás, sobre os “designers de pão-doce”. Já tem de bolo, quase lá. Ainda não sabem definir o que é design, mas a vida segue mesmo assim.

Prefiro prosseguir, se o mercado me permitir ou não, como designer especializado em mídias digitais e que atua como designer especializado em mídias digitais. E já tá bem bom.

Receita de panachê de legumes

Ingredientes:
1 xícara de cenouras fatiadas em rodelas
1 xícara de buquês de brócolos
1 xícara de vagens fatiadas em rodelas
1/2 xícara de água
1 colher de manteiga sem sal
1 sal a gosto

Modo de preparo:
Cozinhe os legumes com água e sal no microondas por aproximadamente 8 minutos. Eles devem ficar bem macios. Salteie-os na manteiga. Podem ser servidos com parmesão ralado por cima. Couve-flor e batatas também podem compor bem o panachê, vale tentar ;)

Dica:
Anote a receita com o título a lápis. Quem sabe o nome da receita muda novamente, né?

 

7 comentários sobre “O “visual designer” e o panachê de legumes

  1. Ah, meu velho… Eu como bom dinossauro que sou, continuo sendo designer gráfico. Só. Designer de raiz.

    Mas acho que num mercado que vende “designer de sombracelha”, “nail designer” e “cake designer”, talvez a segmentação proteja, sei lá.

    Sei que se me perguntam o que eu sou, eu respondo: “designer gráfico”. E já dá trabalho o suficiente.

  2. Rogério, isso é mesmo engraçado, no meio do processo de me graduar designer, meu curso que era Desenho Industrial – habilitação em programação visual virou Design Visual.
    O que mudou? Nadica de nada. Continuo ganhando pouco apesar do nome pomposo :P

  3. Experimenta trabalhar com apresentações corporativas, ai vc não vai ter nenhum classificação como é o meu caso… no minimo vão te chamar de designer de PPT, mas ai cabe a vc responder como se deve ou não! :P

  4. Primeiramente Roginho, achei animal a analogia que fez com o Panachê de legumes, com a Tilápia e a sua dica em anotar o nome da receita a lápis. Gênio!

    Eu acho que nos dias de hoje cada um coloca o NOME QUE QUER no currículo. Para uns faz bem para o ego ser chamado de “Diretor de Arte” ao invés de designer, por exemplo.

    Em agência existem basicamente 3 denominações para o ofício de designer: Estagiário, Assistente de Arte e Diretor de Arte. Só.

    E então vc ouve o diálogo:
    A: aquele cara que começou a trabalhar hj, faz o que?
    B: ele é designer
    A: mas ele é DA ou é só designer?

    Designer = Fazedor
    DA = Criativo

    E dentro do “designer” várias coisas são vistas no linked-in dos colegas: “Ux Designer”, “Designer de interface”, “UI Designer”, “Designer de interação”, sem dizer dos nomes pomposos que a galera coloca em inglês.

    Como disse o Daniel Durski, existe muito, também por parte do designer essa preocupação com o nome pomposo. O designer é “Master Director User Experience Designer”, mas ganha R$600 por mês. Se ele tá feliz, a agência está mais ainda e, pouco importa para a empresa que nome o cara vai se dar para o mercado. Já vi muita gente Junior que se rotular como “DA”.

    Antes de trabalhar na área, “Diretor de Arte” pra mim era Deus, era Gênio. Para mim, um DIRETOR de Arte deveria ser um cara FUDIDO em cinema, som, luz, fotografia, ilustração, tipografia, usabilidade, texto, etc e tal. Pensava que só com uns 50 anos seria capaz de ter um conhecimento de um Diretor de Arte. Rá!

    Hoje neguinho sai da Facu e já vira DA. Simples assim.

    Ufa! Como rende esses seus posts, hein! ;)

  5. Não é à toa que na minha assinatura de email vai um belo “designer”. Afinal, para se chegar à especialista e alguma-coisa-design, você precisa primeiro ser designer, certo? Bom, pelo menos deveria ser esse o ciclo natural.

  6. Eu insisto, quando mamãezinha me apresenta prazamigas como designer, em corrigi-la prontamente: “É, na verdade sou fotógrafa formada em design.”

    Por que? Porque, apesar de ter o diploma de bacharel em design com habilitação em projeto de produto (UFA!) e quase recebendo o de especialista em design gráfico, eu simplesmente não atuo como designer. Eu não sou designer, eu não faço projeto, eu não crio. Eu uso o design como referencial teórico para a construção do meu trabalho fotográfico. E claro, atualmente para seguir na carreira acadêmica…

    Mas meu ponto é: nunca gostei dessas invencionices de nomes pomposos, especialmente quando é estrangeirismo desnecessário.

  7. Excelente texto, delicioso de ler e encaixa perfeitamente na minha realidade…designer de superfícies!
    Ou seja: as pessoas acham que faço algo parecido com “nada”, ou no mínimo, algo superficial e sem importância.
    Chego a ter preguiça de falar que sou Designer de Interiores com especialização em superfícies.
    O que???

    Resumo: sou publicitária.

    Adorei descobrir seu blog!

    Até mais!

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