O ensino de design e os “professores-vintage”

Me interesso bastante pelo meio acadêmico. Vira-e-mexe eu dou uma palestrinha aqui, faço banca de TCC (trabalho de conclusão de curso) ali, leio trabalhos de estudantes acolá. É uma boa maneira de me manter atualizado e não deixar a “pegada acadêmica” se perder no tempo. E me lembro da época que estudava a faculdade de Design Digital. E me lembro dos professores que tive, diversos deles muito bons, não somente que me ensinavam fundamentos do design, mas como aqueles que me encorajaram a ler filosofia, conhecer a cultura e a socidade, ver um filme europeu. Decerto que esse período foi um dos mais transformadores da minha vida.

Mas no meio de tanta boa vontade e dedicação de vários lá estava ele: o “professor-vintage”. Ok, “professor-vintage” é um apelido meigo e irônico pra um tipo específico de profissional que, pelo que tenho acompanhado, cresce assustadoramente em quantidade nas instituições de ensino. E não tem um único foco de atuação, eles atacam todas: as mais tradicionais, as moderninhas-inovadoras e as uni-bocas-de-porco. Mas o que seria, de fato, o “professor-vintage”?

Professor-vintage é aquele sujeito que até pode parecer que conhece algo no começo, só que logo é desmascarado. Pode ou não ser showman. No caso de ser, alguns alunos o idolatrarão para sempre, sem se dar conta. É aquele que não atuou no mercado, não pode falar a respeito. Mas fala. É aquele que não tem conhecimento acadêmico pra nos transmitir e proporcionar experimentos livres de influências mercadológicas. Mas transmite e proporciona. É aquele infeliz que te passa livros pra ler da época que foi aluno sem nunca tê-los questionado. Sorte a sua se o professor dele não for um professor-vintage também, senão tu tá lascado, meu amigo: leu coisas que não fazem sentido há anos. Penso nas indicações de livros de design que tive na faculdade, logo no início do curso, em 2002. Acho que não aproveitaria nada ou quase nada. E nem é tão difícil ter essa noção: basta entrar numa boa livraria e futricar umas prateleiras. Dezenas de livros de cada assunto, coisa que 10 anos atrás era muito mais difícil. Fundamentos do design? Muitos de qualidade, de diversas editoras. Traduções minunciosas e cuidado com o papel, encadernação, tudo nos mínimos detalhes. Eu acho atualmente um tremendo absurdo recomendar o livro “Design para que não é designer” (da Robbin Williams) para iniciantes da área, já que temos “Novos fundamentos do design” (da Ellen Lupton), “Ensopado de design gráfico” (de Timothy Samara) ou “Layout” (de Allen Hurlburt) fáceis de serem encontrados em qualquer livraria física e online. Tipografia? Temos de dúzias. Mas ler seria uma tarefa muito chata para nosso astro enganador. É aquele que se contenta com seu conhecimento antigo e só se vale disso, nunca se atualiza. É do tipo que vangloria desse fato com o valor de um artefato vintage (aliás, sabe qual a diferença entre vintage e rétro?). É um charlatão que gosta de ser bajulado pelos alunos, de ser chamado de professor, de falar que é professor da instituição tal. Muitas vezes os professores-vintage falam com tanta convicção que só damos conta da falta de conhecimento do sujeito anos depois, quando estamos no mercado de trabalho [ou em meio acadêmico, dependendo do caso]. É aquele que deixa alunos com falhas de aprendizado por conta de sua incompetência e falta de respeito pelo tempo e grana dos alunos, pela instituição e pelo seu cargo.

Só na minha época (e na minha profissão) tinham professores assim? Você tem (ou teve) algum professor-vintage? Os casos serão bem-vindos (sem citar nomes nem as instituições, por favor) nos comentários.

 

Autor: Rogério Fratin

Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2016, com a pesquisa Design Thinking Aplicado à Educação. Bacharel em Design Digital pela Universidade Anhembi Morumbi, 2005.

14 pensamentos em “O ensino de design e os “professores-vintage””

  1. Bem, eu tive professores assim. Mas por uma razão bem complicada, até. Quando entrei no curso de Design Industrial (que tinha acabado de abandonar a nomenclatura “Desenho Industrial”), a primeira turma havia acabado de se formar. Não havia nem ao menos professores designers no curso. Eram formados em engenharia, arquitetura, artes visuais, e similares.

    Tive professores que davam basicamente a mesma aula durante quase o semestre inteiro.

    Tive professores que descobri cobrando exatamente o mesmo projeto como avaliação 3 anos depois de ter feito a disciplina pela primeira vez, quando tive que refazer. Sendo que era um projeto explicitamente falho, notável desde a primeira tentativa.

    Agora estou me preparando para voltar à mesma universidade, sabendo que já está bem mais estruturada, e planejando fazê-la crescer ainda mais. Desta vez, como professora.

  2. me formei em arquitetura há 8 anos em uma universidade de ctba. tive alguns professores assim e outros excelentes. fiz pós na área e a história se repetiu.
    meu sonho atual é ir a sp fazer cursos de design gráfico… pq por aqui estou tendo dificuldade em achá-los…
    seu post me ajudou a cair em mim e ver não é somente aqui que existe falta de comprometimento com as pessoas. precisamos ter discernimento e separar sempre o joio do trigo, não é mesmo ?

  3. Tive professor que deu em duas disciplinas [completamente diferentes] exatamente o mesmo conteúdo. Eu disse EXATAMENTE O MESMO. E os alunos o amavam, ele era showman, irônico, do contra, usava frases de impacto, todos os artifícios pra se dar bem sem qualidade.

  4. Sei bem o que é isso.
    Lembro que no começo era tudo um encanto só, tanto na faculdade como em cursos livres de softwares que fiz. Os professores eram Deuses do Design para a gente, eram referências fodas na época, uma época em que ainda muitos de nós acessávamos internet via modem e a quantidade de livros traduzidos para o português era escasso.
    Hoje muita coisa evoluiu. A facilidade dos softwares, a velocidade do computador e da internet, a comunicação, as redes sociais e os livros. Puts, hoje tem MUITO mais livros bacanas para recomendar/ler. Mas sinto exatamente isso que vc fala, Roginho, tem professor que definitivamente para no tempo. Com tudo isso de opção e tecnologia para se reciclar, o que acontece que eles não acompanham?
    Já cheguei a acessar o site de alguns professores de lugares em que estudei e lhe digo uma coisa: Dá uma vergonha alheia danada. Já vi coisas horrendas, cara.
    Não consigo admitir a ideia de anos depois eu estar fazendo coisas (MUITO) melhores que professores que eu idolatrava na época, e professores estes que ainda dão aula.
    Se eu fosse um cordenador de um curso de design de uma instituição, para contratar um professor eu pediria primeiro de tudo o cartão de visitas. Só aí já dá pra ter uma noçãozinha, mas tiraria a prova vendo outro mateiral, como o site/portfólio (qualquer mané de agência tem um). Se o cara é professor, ele tem que mostrar o exemplo na prática, pelo menos é assim que eu penso. A não ser que seja uma pegada extremamente teórica e acadêmica e o cara não tenha o que mostrar e for bão na arte de dar aula (isso vale para quem tem ou quem não tem portifólio).
    Vamos imaginar uma situação… se vc estudasse engenharia/arquitetura, vc botaria uma fé num professor como o Sergio Naya? Po, não dá né? Que moral o cara tem?

    A discussão vai longe… (e como eu preciso ir dormir, vou parando por aqui) Fui!
    🙂

  5. Tenho esses professores também, a maioria…

    mas tenho 2 professores mais pesquisadores de design que designers que salvam o curso.

  6. Acho que todos que atuam nessa área, já teve algum “professor-vintage”. Uns dois anos atrás, quando eu estava iniciando eu fui fazer um curso, e mudei de professor duas vezes, mas não tinha jeito, a aula deles era pegar tutorial de sites (e que tutoriais, que lixos de tutoriais, poderiam pelo menos ter a cara de pau de pegar uma coisa bem feita), mas enfim, eu tive que abandonar o curso, porque né, o coisinha ruim rs

  7. “o sistema brasileiro de educação – seja qual for o grau – está cheio desses profissionais sanguessugas… herança da esperteza cultural”

  8. Todos nós tivemos ou conhecemos professores deste tipo… e precisamos cuidar para não nos desatualizarmos com os anos e acabarmos nos tornando um deles com os anos 🙂

    Considero que cada um sabe de suas qualidades profissionais, mas fico indignada quando quem é atuante no mercado de trabalho é discriminado no meio acadêmico… o que ocorre vamos dizer, sempre!! Porque não pode haver uma permuta dos conhecimentos de mercado com os acadêmicos?? Seria o ideal, não acham?

    Abs,
    CarolHoffmann

  9. É bem verdade, Carol! Mas acho que essa troca só é possível a medida que aqueles que atuam no mercado como nós e que querem seguir os caminhos acadêmicos, fazem um esforço grande para trazer algo novo às instituições.
    Estudei na UTFPR, o antigo “cefet” aqui em Curitiba, e a facilidade com que encontro professores-vintage é incrível. Isso se deve ao fato da própria formação do curso (que veio das Artes Gráficas, precedido pelo Desenho Industrial). Durante meus últimos períodos, presenciei muitos professores novos chegando à instituição, e com eles, estas novas visões e abordagens. Percebi que eles sempre tentavam mudar as estruturas que os outros professores consideravam fechadas já. Quem sabe não é exatamente isso que deve acontecer? 😉

  10. Bhaaa, tenho um exemplar deste tipo, como o pessoal fala a figura quando questionada deixa os alunos no vacuo, ou seja sem resposta, pelo simples fato de não saber o que deve responder, eu me indigno com isto, aula mal dada é tempo da gente perdido, conteudo não dado, e pior que isto é aula meia boca, que se estendem por varioooos periodos só pra matar mais o tempo e se livrar de mais um dia de aula. Afii, fico por conta com os vintagens!!

  11. tive sim!! uhh se tive!!! além de não saber bulhufas do que se tratava meu tcc, não lia o material que mandava pra ela por email…
    tudo bem, eu entendo, século XXI, é tão difícil conectar um computador na internet e baixar um arquivo de 50kb….

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