Ícones, conceitos e mudanças tecnológicas

O tempo passa, a tecnologia muda assustadoramente a cada curto espaço de tempo. Ok, ok, sei que isso todo mundo fala. Antes de qualquer dúvida esse não é um texto sobre escravidão tecnológica e nem acredito que você vai ser um Zé Ninguém daqui a dois anos se não tiver uma geladeira com entrada USB, wireless e que tuíta sozinha quando você pega uma cerveja.  Nem gosto desse blá blá blá. Além dos produtos (muitas vezes geniais, outras nem tanto) que a tecnologia nos oferece, existem também mudanças conceituais que cada um ou o conjunto deles podem acarretar. E, refletindo um pouco, comecei a questionar elementos visuais presentes na vida de (quase) todo mundo que opera um computador, seja no trabalho, na sua casa, numa LAN house. Será que esses elementos farão sentido daqui alguns anos? Será que as próximas gerações entenderão o que cada um deles realmente significa? Nós, como designers, precisamos pensar a respeito. Podemos carregar um paradigma ou estar na zona de conforto.

Ícone "Meu Computador", no Windows 95 Ícone "Meu Computador", no Windows Millenium Edition Ícone "Meu Computador", no Windows XP

Repare como o ícone Meu computador mudou com o tempo nas versões 95, Millenium e XP do Windows. Apesar das diferenças, não é bem desse tipo de mudança que falo. Nesse caso não houve uma mudança conceitual, praticamente só o reflexo da tecnologia. O monitor ganhou cores junto com as placas de vídeo e depois o gabinete horizontal muda para o formato torre, junto com o monitor de LCD. Fim.

Ícone "Salvar", do Microsoft WordQuando dava aulas de informática (em 1997) meus alunos com mais idade questionavam por que tinham que clicar num botão com o desenho do disquete para salvar algo na Área de Trabalho ou então em Meus Documentos. E tinha tudo a ver essa pergunta, não? Eles não viam o ícone como representação do ato e sim como o local. O tempo passou e o problema cognitivo desse ícone, a meu ver, “aumentou”: Agora ele continua sem representar o local onde o arquivo será salvo, como também traz um objeto que praticamente caiu em desuso.  Responda rápido: Quanto tempo faz que você não vê um disquete? E quando comprou o último? Eu não lembro. Tenho certeza de que pelo menos há 5 anos. Ou eu resolvia o transporte por email ou então numa pen drive. O fato é que eu, como muitos outros, não usamos mais disquetes mas sabemos o que é. E as crianças com 5 anos de idade que daqui outros 5 estarão extremamente ativos no meio digital, o que um botão com disquete significará? Nada. Seria a hora de quebrar o paradigma do disquete como ícone e pensar em alguma outra coisa?

Ícone Meus DocumentosQual será a ideia de documento daqui a um tempo? Hoje, pra mim (nascido em 1980), penso em documentos como papéis dentro de uma pasta, é assim que fica lá em casa. Numa pasta ficam os pessoais, tipo certidão de nascimento, Carteira de Reservista… Noutra ficam as contas, aluguel, água luz, contratos e afins. Vejo programas de redução do uso de papel nas empresas, até o Tribunal de Justiça está digitalizando todos os seus processos e calculando quantas árvores eles vão salvar daqui pra frente. Ouvi papos que existem planos para as próximas eleições, não sei se em 2 ou 4 anos, de usarmos as digitais ao invés do Título de Eleitor. RG, CPF e Carteira Nacional de Habilitação dividem o mesmo pedacinho de papel. E também veremos o dia que receber contas em papeis em casa não faz muito sentido. Pra uma geração desacostumada com a ideia de documento como é a minha, imagino se Meus documentos num futuro não tão distante, não precise ser outra coisa. Quem sabe até haja uma inversão, como se os documentos digitais, que foram inspirados nos físicos, passem a ter o significado de documento, mesmo. Acredito que cada vez menos usaremos pastinhas cheias de papeis em casa. Representaria o ícone Meus Documentos a mesma coisa em 2015 que representa agora?

Ícone imprimirCom todo o movimento sustentável, como o Planeta Sustentável por exemplo, entre tantos outros, junto com os equipamentos como iPad, Kindle e todos os outros “livros/revistas digitais”, imagino que a cultura de poupar papel será cada vez mais forte. Meu primo, por exemplo, 10 anos mais novo que eu, lê quadrinhos na tela do computador sem o menor problema, o que pra mim é impossível. Ler um quadrinho começa na saída de casa rumo à banca de jornal. E tem a textura, o cheiro, o tamanho, tudo. Ler quadrinhos, livros, revista é experiencial, contextual. Mas pras novas gerações não é assim. O famoso e tão usado ícone imprimir permaneceria exibido numa época de poucas impressões ou será que a melhor coisa, para facilitar, seria deixá-lo em algum menu, como algo menos importante? O designer John Maeda, em seu livro As Leis da Simplicidade, fala sobre isso.

E outros tantos ícones, como o da caneta marca texto, copiar, colar… Até as pastas que organizam os arquivos dos sistemas operacionais, o que vai acontecer com isso tudo? Manteremos a mesma imagem icônica embora conceitualmente prejudicados por quem desconhece esses elementos ou quebramos o paradigma e criamos novas propostas? E quais seriam essas propostas? Eita, quantas perguntas…

Deixa uma resposta aí nos comentários, vai? :)

25 comentários sobre “Ícones, conceitos e mudanças tecnológicas

  1. Esses ícones são usados como metáforas. É utópico pensar que com as inovações digitais todos os registros e metódos organizacionais de séculos da humanidade vão desaparecer. Um ícone é uma informação, uma referência visual e por isso é muito prático. Ao meu ver, suas representações podem mudar conforme uma nova grafia da língua, mas sem mudar sua estrutura. Mudar a estrutura e as formas de interface é que implicariam uma mudança no paradigma.
    Além disso, essa argumentação eco parece fazer sentido, mas imprimisse ainda mais do que quando não havia computador.

  2. Bela abordagem Rogério. Eu passei por essa situação quando tiver que representar icones de lazer, digamos assim, tradicionais como parque de diversoes e circo
    Algumas crianças não conheciam roda gigante no contexto de um parque de diversoes, apenas isoladamente em estacionamento de shoppings etc.
    E nao entendiam a lona do circo ou bichos enjaulados.

    Se pararmos para refletir tem muita coisa. O disquete, na minha opiniao é o mais dificil de ser substituido.

    Abração

  3. Grande Roger!

    Ótimo questionamento e definição de “ler gibi” melhor ainda…nascidos na década de 80 ainda são românticos qnd se trata de material de papel!

    Concordo com o que vc disse com relação aos ícones e, aproveitando seu expertise como designer, pq não sugere algumas novidades?

    Abs,

  4. Ótimo texto, mas discordo com relação ao ícone de salvar. Ele poderia mudar? Sim, poderia. Mas não vejo isso como um problema para as gerações futuras, pois o icone é aprendido. Eu penso no transtorno que seria a sua troca para os usuários acostumados e que, já sem pensar, clicam no icone sabendo sua função. As crianças mesmo sem saber o significado do quadradinho estranho, aprendem que ele significa salvar. Um exemplo disso é a representação da placa de proibido estacionar, onde a letra “E” poderia ser qualquer coisa..

    Abraços

  5. Simplesmente a associação com o desenho que a gente tem como disquete vai ter com salvar… Acho que você tá apelando prum papo muito nerd muito tecnológico. Com o que se parece um arquivo digital???

  6. Bom, não sei se os ícones mudarão enquanto ainda tivermos uma grande demanda de usuários acostumados com esses ícones (hoje, se mudarmos o disquete para alguma outra coisa, muitos usuários provavelmente ficariam procurando o “botão de salvar”).
    Mas o interessante é que se os ícones ficarem sem mudar, é bem provavel que no futuro, veremos o pessoal falar ao ver um disquete: “Nossa! Aquele ícone de salvar…” Ou achar que é algum tipo de enfeite no formato do botão de salvar…

  7. Acredito que a evolução acontece naturalmente. Desde os primórdios o homem já utilizava formas de comunicação, independente da ferramenta. E os signos e símbolos sempre estiveram presentes, mudando de acordo com os tempos. A evolução tecnológica e os meios de comunicação são cambiantes. Além dos ícones, a escrita também está sofrendo alterações, pois tudo na Internet é completamente modificado para tornar a leitura mais rápida. A sociedade evolui, assim como também as ferramentas tecnológicas.

  8. Excelente o texto. Já vi que vou passar o dia inteiro pensando sobre isso.
    Parabéns!

    Interessante também ver as experiências e pontos de vistas postados nos comentários. Só não entendi o “imprimisse ainda mais do que quando não havia computador”

    :)

    Gostei do blog. Vou ficar de olho.

  9. Puta post legal hein, mano!
    Acho que este texto serviu para colocar mais dúvidas na minha cabeça. Caceta!
    Também acho que o disquete é complicado de substituir. Acho que um ícone passa o significado daquilo que temos em nosso repertório.
    Levantando um ponto meio questionável, talvez este ícone de salvar nem seja substituído. Ele representa o “salvar” e ponto. Como o Renato Dop disse, pode ser um transtorno mudar um ícone que nasceu assim, foi aprendido e será aprendido pelas próximas gerações.
    A criança de 8 anos que quiser saber o que é aquilo vai pesquisar e vai achar na web o que um dia foi um disquete. Servirá também como um significado que faz parte da história da informática, etc…

    Cara, tenho certeza que esse assunto rende além de muitos comentários, outros posts ainda. Manda ver!

  10. olá, Osama, tudo bem?
    cara, obrigado por acessar, ler e também comentar esse post. mas olha, sinceramente acho que trocaria o seu “Acho que você tá apelando prum papo muito nerd muito tecnológico” por “Você está usando a semiótica pra analisar os ícones e isso me irrita”. A função do blog é, antes de tudo, questionar e proporcionar reflexão. Não tenho como meta mudar o pensamento das pessoas, nem apelar pra nada pra ter pageviews. Não ganho nada com isso, porque no DESIGNICES não entra jabá, nem patrocínio, nem link patrocinado nem nada. E deu certo, mais uma vez. Vários comentários bacanas, claro, contando com o seu. É a discussão que me agrada aqui e ela tá rolando. Obrigado!
    Um abraço,
    Rogério Fratin

  11. Acho que é possível que os ícones tenham que mudar sim. Mas assim como o disquete teve o seu tempo para se tornar praticamente “sem sentido” os outros também terão o seu tempo. Não acredito que essa mudança tenha que ser planejada já agora.

    Mas já ta valendo pensar em novas propostas pro botão “salvar’!!! hehe

  12. Isso acontece com muitas coisas à nossa volta. É algo que nos liga ao passado e não acho de todo mal, embora realmente precise ser discutido e evoluído.
    A gente não fala até hoje “zerar o jogo”?
    Virar o disco? Queimar o filme?

  13. Que beleza de comentários. Muito obrigado a todos!
    Vitor Barreto, exatamente! Tínhamos uma estagiária que não sabia o motivo de falarmos “caiu a ficha” relacionado a entender algo. Ela nunca havia usado um orelhão com ficha… hehe! É como o iTunes, que não usa mais o CD de logo. Show!
    Obrigado novamente, abraços a todos
    Rogério Fratin

  14. O Marquim disse o que eu penso. Imagino que o ícone vai perder seu significado original para passar a ser associado somente à salvar – não precisa referência física para a metáfora. Exemplo rápido: por que a letra “A” se desenha dessa forma? Provavelmente tinha algum motivo/associação, mas esta sumiu deixando só a ligação com o som “A”.

  15. Pode continuar pensando? (2 votos rs)

    Ótimo texto Rogin!

    Meu sobrinho de 10 anos me perguntou bem sobre isso há uma semana atrás… “Tio, o que é esse negócio que a gente clica quando vai salvar?”

    Um outra observação (não muito relacionada mas…) que ele fez esses dias foi quando eu falei que tinha que criar uma conta para subir um vídeo no YouTube… “Criar conta??? Que droga… deixa pra lá”… a gente faz essas coisas a tanto tempo, preenchia cadastros extensos e hoje eles acham absurdo ter que ficar vinculando e-mail e senhas a sites (e email que é outra coisa que eles não usam)

  16. Que legal, Duds! Pois é, cara… e ainda tem gente que fala que eu tô “(…) apelando prum papo muito nerd muito tecnológico”. Designers andam preguiçosos pacas pra pensar ou é só impressão minha?
    Valeu pelo acesso e pela colaboração, amigos!
    Abraço!
    Rogério Fratin

  17. Ai Roger, tá vendo, ainda sigo seus twitties e esse texto realmente nos leva a algumas discussões conceituais.

    Acho que poderiamos partir do principio que muitas pessoas sequer têm noção do que é um ícone.

    A representação do salvar é uma boa abordagem cognitiva. Mas ai a pergunta, em alguns lugares sabemos que o sinal de “jóia” é uma ofensa, como o facebook resolveu isso para o like?

    Culturalmente acho que o “S” sublinhado ou a forma escrita tornaria representativo, mas até ai. Vale pensar, como representar algo que já é virtual?

    Enfim.. retwittado. ;-)

    []s
    Raul

  18. Já viu como GNOME, KDE e os demais desktops livres implementam estas evoluções?
    Este “mundo” não se resume a equipe de design da Micro$oft.

  19. Muito boa a observação do ícone do disquete!
    Acho que seria propício substituí-lo, mas por qual imagem? Sendo que os meios que a gente utiliza hoje, como o pen drive podem ser substituídos em 5 ou 10 anos…
    é algo a se pensar, teria que ser um símbolo como o fechar que é um “X”, que representa de maneira simples e universal…quem sabe uma cruz para salvar? (brincadeira…)
    Parabéns!

  20. Tem coisas que já se tornaram tão automáticas que acabam perdendo o significado, se não perdem eles ficam ocultos. Nunca havia percebido isso, essa coisa de que o salvar digital é representado por uma ícone que liga o conceito do ato a um objeto físico, sempre passou despercebido, acho que eu nunca notaria. Deve ser isso que vai acontecer com o tempo o ícone do disquete vai virar sinônimo de salvar, ao menos por um olhar visual semiótico. Ou não.

  21. O ícone do disquete poderia ser substituido por um ícone de Jesus. Afinal o ditado de que “Só Jesus salva”, deve ser universal. Aposta que daqui 20 anos não ficara ultrapassado.

  22. Talvez os símbolos de imprimir e salvar sejam no futuro como as camisetas de Che Guevara hoje. Todos usam sem saber o que é, qual o motivo e razão e nem seque se dão ao trabalho de se questionar rs…

    E sim, eu também prefiro ler uma HQ/Livro em papel por todos os motivos que você cita acima… mas consigo ler em uma tela também, apesar de não ter “o mesmo sabor”.

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