Cultura gráfica #0: Você é o que você vê

Cultura gráfica #0: Você é o que você vê

Me perdoem pelo clichê, mas você, enquanto designer, é o que você vê e principalmente o que procura ver. A conta é simples: se você ficar atrás de lixos visuais, provavelmente teus trabalhos e tua percepção ficarão viciadas em lixos. Não que você necessariamente faça lixos exatamente como os que vê, mas no mínimo deixa de fazer melhor. Simples e objetivamente, é isso. Mas não é só isso: se você opta por disseminar o que não presta visualmente, quem vê deixa de aguçar sua percepção também. Se forem designers, um problema. Se não forem, também. Talvez maior.

Antes de seguir: O que eu quero dizer com cultura gráfica?
A cultura gráfica poderia, talvez, ser chamada apenas de cultura, que vem do cultivo e do contrário da ignorância, como diz a definição do dicionário que usei pra ilustrar esse artigo. Optei por reforçar que me refiro à parte visual do que pretendo expor com o complemento “gráfica” no nome. A cultura, como cultivo de algo, nunca consegue ser instantânea. Sempre depende de tempo e de bastante trabalho. No caso da cultura gráfica, por exemplo, não é uma única ida ao Museu de Artes de São Paulo ou assistindo aos incríveis Durval Discos e O Carteiro e o Poeta que tá tudo certo. São necessárias dezenas, centenas, milhares de referências – boas e diversificadas referências – para que as camadas sedimentares culturais visuais se depositem e formem, cada vez mais solidamente, um repertório mais sólido e favorável ao mundo do design e da arte, seja para um designer, um artista, um advogado ou bancário.

Num flashback aos meus anos de ensino fundamental e médio, algumas perguntas eram sempre repetidas nas aulas de matemática, por exemplo:

– Mas quando eu vou usar uma equação do segundo grau na minha vida?
– Pra que serve eu saber o volume de um tetraedro regular?

A equação, pela equação, talvez nunca. E talvez nunca também precise saber a área de um tetraedro regular. Mas não é pra isso que serve a matemática na escola. Ela serve pra ensinar a lógica. Da mesma forma que temos que aprender português pra que nos expressemos de maneira correta, nas mais diversas situações. As aulas de educação artística, que muitas vezes são deixadas de lado ou não são levadas tão a sério como as das outras disciplinas, servem para “ensinar a sensibilidade” e iniciar a cultura gráfica a partir de um método educacional. E uma pena que nem sempre isso ocorra.

É bem comum que um observador se incomode quando os padrões visuais de uma paisagem natural ou urbana seja quebrado. Uma casa extremamente popular no meio de um bairro rico, uma árvore centenária que não pode ser derrubada no meio de um shopping center glamuroso, um Fusca estacionado em frente à uma concessionária da Ferrari. Esses contrastes mesmo que comuns, além de chamarem a atenção do observador, causam certa estranheza que pode e deve ser valorizada. Tão importante quanto essas quebras visuais externas é quebrar o padrão de repertório que um observador tem, até que isso seja mais usual e absorvido por ele. Dessa forma a cultura gráfica é, me desculpem o trocadilho, cultivada. Em exemplos mais diretos: é mostrar o grunge para o clean, a Caslon para a Helvetica, a máquina de escrever para o iPad e os contrários. E claro, a ideia não é que o grunge tome banho ou o clean brinque na lama: é que cada um deles abra seus leques e perceba o que há ao redor e, de repente, absorva alguma característica, o conceito, o comportamento ou o visual propriamente dito.

E por que é importante que designers e não designers aumentem sua cultura gráfica?
Os designers em geral precisam beber da água cultural sempre, e de todas as fontes. O Claudio Ferlauto sempre me ensinou que o norte do design é a cultura. Quando mais cultura um designer tem, mais reflexos dos bons ele tem em seus trabalhos. Quem mora na Europa, por exemplo, é acostumado sair de casa e praticamente tropeçar em História da Arte na ida à padaria, coisa que não ocorreria numa cidadezinha do interior de Roraima. Nesse caso nem o europeu pode se dizer plenamente abastecido de cultura nem o interiorano pode se dizer sem. Como citei anteriormente, o processo de promoção cultural é lento e, quiçá, vitalício.

Para os não designers é bem simples entender o motivo: quanto mais repertório visual eles têm, mais valor ao nosso trabalho vão dar. E as coisas mudam. Demoram, mas mudam.

Eu sou um eterno defensor e militante da propagação da cultura gráfica e acredito que essa atitude só tem a melhorar a vida de quem é envolvido.

Como você promove a sua cultura gráfica? E a dos outros?

Detone nos comentários, hein?

Nota: esse tema será dividido em quatro partes. Em breve as demais aparecem por aqui, também. Volte sempre 😉

Autor: Rogério Fratin

Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2016, com a pesquisa Design Thinking Aplicado à Educação. Bacharel em Design Digital pela Universidade Anhembi Morumbi, 2005.

6 pensamentos em “Cultura gráfica #0: Você é o que você vê”

  1. Ver, para o Designer, é aprender. Assim como um bom apreciador de vinhos precisa treinar o seu paladar, o Designer precisa treinar o seu olhar. E treinar o olhar é algo mais complicado do que parece.

    Ampliar uma cultura visual é um primeiro passo, porém o mais difícil é treinar o senso crítico ao que se vê. Ver é repertório, conhecer linguagens e ter amplitude é vocabulário. Mas só com senso crítico que se consegue compreender e transformar vocabulário em comunicação.

    Caso contrário é apenas informação. Dados. Conteúdo. E apenas informação, sem articulação ainda pode nos levar ao analfabetismo visual.

  2. Como um bom designer, abasteço a minha cultura gráfica vendo coisas e referências o tempo todo. O Pinterest tá aí pra gente poder treinar também muito isso.
    Tenho por exemplo um board “Retratos” onde coloco os mais fodas que vi, mas de tempos em tempos, vou lá e dou uma olhada geral e acabo fazendo uma auto-crítica e excluindo alguns que veo que, na minha concepção e treino visual já “não são tão bons” mais, entende?

    Outra coisa que faço é fotografar, treinar o enquadramento, a armonia das formas, a estética da cor, da luz e da sombra. Isso me faz perceber detalhes em um layout feito no photoshop, por exemplo.

    Além disso, espalho essa cultura postando fotos no Instagram, “Pinterestando” coisas belas e postando projetos pessoais no Behance e no Blog 🙂

  3. Venho do espaço cultural em São Paulo, que não tem amplitude para cultura gráfica, e aprendi a enfrentar a falta de espaço que as pessoas espremem entre aquilo que consideram importante.

    Aprendemos a ver cultura, mas, ela se faz menos importante no que as pessoas precisam para sustentar-se num total, perdem a humanidade ao não olhar filosoficamente para o seu em volta, e todas elas, se parecem o máximo possível com o que pensam ser bonito o com o que as induzem a pensar “visualmente bonito” o espremido da cultura visual perde seu espaço e: – ou temos de colocar os óculos para não visualizar essa falta e ficar apenas com o que queremos absorver. Ou tento fazer do “feio” que vemos “bonito”

  4. “Great dancers are not great because of their technique; they’re great because of their passion”. No entanto, “[…] a técnica é o que permite ao corpo chegar a sua plena expressividade”. – Martha Graham

    “Como o poeta deve, cada vez mais, conhecer e dominar o seu idioma para ter maior capacidade de expressar as suas idéias sem restrições, o dançarino deve dominar a técnica do movimento para aumentar seu vocabulário corporal e o coreógrafo precisa conhecer os princípios do movimento para enriquecer seu material principal de trabalho – o movimento. Porém, sem deixar que essa classificação se torne inibidora da espontaneidade interpretativa e criativa”. – L. Robatto

    Palavras de outro área, mas que podem muito bem ser aproveitadas por nós.

    Técnica, Prazer e Comunição.

  5. Moro numa cidade do interior pernambucano e vejo bem essa situação, e o contraste, da cultura gráfica aqui. Os designers que possuem uma bagagem maior de conhecimento e “acúmulo de cultura” nem sempre podem desenvolver trabalhos “inovadores”, pois o mercado ainda não consegue entender e absorver o novo. Mas com o tempo creio que esse cenário mude.

  6. O texto traduziu um conceito que eu tento aplicar na minha vida desde que entrei na faculdade.
    Não tem nada mais saboroso que ter uma biblioteca mental a disposição a cada novo job.

    Só faria um adendo: Cultura musical, não o gosto por boa música ou não, mas o negócio de se inspirar ouvindo músicas diferentes também!

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