Como NÃO trabalhar com um designer

Com base no que o design é, no que pode fazer e modificar, podemos pensar rapidamente em suas infinitas aplicações, seja em produtos físicos, digitais, serviços, estratégias e como matéria-prima para gerar quebras de paradigmas empresariais. O modo de pensar do designer, que ficou popular como design thinking, tá no radar de autores de livros e escritórios de inovação desde 2008, embora o designer já pense como designer desde que o design é design, né? Ou existe design sem thinking?

De todo modo, mesmo com tantas possibilidades, não permitir que um designer trabalhe como se deve pode trazer muitos problemas para o projeto e além, claro, para a equipe. Infelizmente isso acontece com muito mais frequência do que deveria.

Afinal, então, como não trabalhar com um designer?

Não envolver o designer desde o início

Entregar o trabalho para o designer ou a equipe de designers com todas as decisões tomadas é bastante desestimulante. Quanto mais um profissional de design sabe sobre o projeto, mais ele pode colaborar e melhor desenvolver seu trabalho. Claro, não me refiro a deixar o designer tomar todas as decisões sobre todos os projetos de toda a empresa, longe disso. Quanto antes um designer se envolver, mais adequadas e profundas serão as soluções encontradas para os problemas do projeto.

Trazer soluções e não problemas

Se a solução estiver decidida, não precisa do trabalho de nenhum designer. O que os designers fazem é achar as soluções, as mais adequadas. Chegar com soluções no lugar de problemas é como contratar um motorista particular, deixá-lo no banco de trás e guiar a viagem toda. Por parte da empresa, é dinheiro jogado no lixo. Por parte do designer, é um balde de água fria.

Iniciar projetos antes das definições

Claro que a ansiedade de começar um projeto pode entrar em cena, mas ela deve ser controlada. Sem as especificações não há projeto. Sem os textos corretos não se faz a capa do livro, sem as dimensões corretas não se faz a embalagem, sem a quantidade de interfaces não se faz um cronograma. Sem definições não se trabalha.

Usar apenas números como base de tomada de decisão

A criatividade e, embora não tenha gostado de usar essa seguinte palavra, a inovação, funciona e pode ser potencializada se estiver equilibrada entre duas forças: o pensamento dedutivo e o pensamento indutivo.

Optar apenas pelo pensamento dedutivo, seguro, determina trabalhar baseado em números de pesquisas qualitativas, que atendam ao status quo, e total apego ao que foi previamente testado e aprovado. A chance de inovar utilizando somente o pensamento dedutivo se torna rara, pois a aplicação é feita para evitar opções experimentais e que podem causar erros. Já o pensamento indutivo é o formato que permite inovar mais rapidamente; entretanto, o uso exclusivo da indução representa uma decisão de alto risco, pois ocorre sem um formato estudado e sem método, o que acarreta em alta dificuldade de crescimento e longevidade do produto ou serviço em questão. Para Roger Martin (2010), o designer deve saber o momento de utilizar o pensamento indutivo para gerar inovação e solucionar problemas, e o dedutivo para criar métodos, ambos em equilíbrio.

Tratar referências como “o certo”

Todos deveriam saber utilizar as referências como… REFERÊNCIAS. Se for pra fazer igual, copiar descaradamente, não vale a pena ter um designer pra isso. Algum técnico que saiba operar bem as ferramentas ou os programas de computador necessários para a execução pode ser mais útil e custar bem menos.

Interferir no processo criativo

Muita coisa ocorre durante o processo criativo individual. É um momento peculiar, individual. Nele são realizadas sucessões de testes, de erros, gerando bastante aprendizado. Todas essas etapas (e outras, quem sabe) são necessárias e, quando interrompidas ou tolhidas, parte da solução pode atrasar pra ser encontrada ou sumir de vez.

Importante: uso, em cada um dos tópicos, a palavra empresa para simbolizar o demandante ou o contratante do trabalho, que pode ser a empresa que emprega o designer, um fornecedor, uma produtora, etc.

A ideia é que essa postagem seja viva, atualizada, sempre que outros tópicos surgirem.

E contigo? Quais são as melhores maneiras para NÃO trabalhar junto?


Referências bibliográficas

MARTIN, Roger. Design de negócios: por que o Design Thinking se tornará a próxima vantagem competitiva dos negócios e como se beneficiar disso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

Autor: Rogério Fratin

Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2016, com a pesquisa Design Thinking Aplicado à Educação. Bacharel em Design Digital pela Universidade Anhembi Morumbi, 2005.

1 pensamento em “Como NÃO trabalhar com um designer”

  1. Adorei o texto!!! Muitos dos pontos abordados valem para outros profissionais também. No meu caso, não ter espaço para discutir opiniões divergentes é algo bem desestimulante. A graça é construir algo que toda a equipe se sinta responsável porque, afinal, ajudou a modelar.

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