Design Para Negócios Na Prática [Heather Fraser]

Design Para Negócios Na Prática [Heather Fraser] - Capa

O design thinking e os meios de inovação aplicados aos negócios têm se provado cada vez mais eficazes e imprescindíveis para as empresas que analisam o que ocorre no mundo, desejam mudar a mentalidade dos corpo de funcionários, como são vistas no mercado e, pode-se dizer, evoluir. Evoluir, sim. A humanização dos processos atinge cada vez mais áreas e quem tem feito coisas realmente interessantes por aí tem perdido o comportamento quadrado e tradicional. A novidade agora é buscar a novidade. É só olhar quantas startups aparecem por aí e buscam atender os nichos, algum momento do dia, suprir algo que atrapalha um pouquinho ou um montão o cotidiano. Isso é traduzido com serviços pra população, como aplicativos para smartphones, bicicletas grátis em programas junto aos bancos (é, até os bancos, “quadrados” como são, estão cada vez mais dentro desses processos), projetos sustentáveis, ONGs, projetos que vivem das Caudas Longas. Nesse cenário, claro, as publicações sobre os processos de design thinking aumentaram significativamente. Ainda bem.

Algumas traduções importantes chegaram ao Brasil, como o Design De Negócios (do Roger Martin) e o Design Thinking (do Tim Brown), além do tupiniquim Design Thinking Brasil (ou DTBr, do Tennyson Pinheiro e o Luis Alt, da LiveWork), todos pela Campus Elsevier. Em todas essas publicações são abordados bons exemplos de inovação, processos criativos e essas aplicações que geraram bons, ótimos negócios.

Design Works [Heather Fraser]De qualquer modo, a aplicação das ideias e ferramentas inovadoras é bastante prática. Os estudos podem sair de ações práticas, os produtos, tudo. Aí vem aquela imagem na cabeça de quilos de post-its grudados em quadros, pessoas sentadas em roda, escritórios coloridos etc. Esses ambientes e essas abordagens são propícias pra trabalhar com esse tipo de ação inovadora, mas restava saber pelas literaturas do tema como e quais eram as ferramentas utilizadas durante os processos práticos do design thinking. É nessa linha que entra o livro Design Para Negócios Na Prática – Como Gerar Inovação e Crescimento Nas Empresas Utilizando o Business Design (do original Design Works – conheça o site em inglês), da Heather Fraser. A autora, aliás, que é pupila do Roger Martin que citei anteriormente e que escreve o prefácio dessa obra.
O sumário:

PARTE I
A PRÁTICA DO DESIGN PARA NEGÓCIOS (BUSINESS DESIGN)
PANORAMA DO DESIGN PARA NEGÓCIOS – Criando, entregando e sustentando valor
MARCHA 1: EXPLORAÇÃO – Reformulando a oportunidade
MARCHA 2: DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO -Renovando a visão
MARCHA 3: DESIGN ESTRATÉGICO PARA NEGÓCIOS – Reorientando e ativando a estratégia
PREPARAÇÃO PARA A JORNADA – Estabelecendo as bases
TRANSFORMAÇÃO – Incorporando o Design para Negócios na empresa

PARTE II
FERRAMENTAS E DICAS PARA A PRÁTICA DO DESIGN PARA NEGÓCIOS
LISTA DE FERRAMENTAS E DICAS
PREPARANDO-SE PARA A JORNADA – Estabelecendo as bases
MARCHA 1: EXPLORAÇÃO – Reformulando a oportunidade
MARCHA 2: DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO – Renovando a visão
MARCHA 3: DESIGN ESTRATÉGICO PARA NEGÓCIOS – Reorientando e ativando a estratégia

A autora usa uma metáfora para os capítulos como as marchas de um carro: uma engata na outra e o veículo desenvolve coerentemente. E nada de pular marchas! Na PARTE I tem alguns exemplos e definição do design de negócios, o básico para seguir. A PARTE II, que corresponde a mais da metade da publicação e é pra mim o grande trunfo da autora, é repleta de ferramentas da aplicação do conteúdo, uma a uma, explicadinha porque é importante e como fazer.

Nota 1: Essa obra foi “revisada” pela Symnetics, uma empresa de Business Design. Eu li antes a publicação original em inglês (como parecerista desse livro) e não vi nenhuma necessidade das intervenções feitas. Da mesma forma, inclusive, que ocorre com o Design de Negócios, do Roger Martin. Nada que influencie na versão em português, nem positiva e nem negativamente.

Nota 2: A capa da edição brasileira ficou muito mais bonita do que a original e o título é mais específico do que simplesmente “Design Funciona” ou algo assim. De qualquer modo acho que vale a pena a Campus Elsevier dar uma olhada com carinho na mancha de texto e entrelinha/entreletras desse livro. Talvez um ajustezinho possa ajudar. Nada GRAVE, mas podemos melhorar, né?

Design Para Negócios Na Prática [Heather Fraser] - Verso

E você? Participa de eventos, palestras, workshops de design thinking? Aplica na prática os conceitos?

Os projetos de design e a Matemática dos Danos

Sim, escolhemos “humanas” na hora de seguir a carreira, eu sei. Isso, claro, não exclui por completo as exatas da nossa vida, seja na hora de cobrar por um freela, seja na hora de se planejar financeiramente. Pelo menos não deveria. Fato é que no mercado de trabalho temos uma “matemática” muito importante a seguir: o famoso e temido prazo de entrega.

Ok, aí podem vir todas aquelas argumentações de “ai, mas tudo é pra ontem”, “ai, mas meu cliente não sabe de xyz”, “lá no trabalho ninguém tá nem aí pra nada…”, só que não é essa parte do prazo de entrega que pretendo tratar. Como diria o poeta: Se o job é pra ontem, me passe antes de ontem. Quero falar sobre como pode ser (e efetivamente é) exato o tempo dedicado ao trabalho e as consequências disso tudo.

Se o job é pra ontem, me passe antes de ontem

Bem, do meu lado, tenho um processo de trabalho muito bem definido. Atuo como diretor de arte (mas confesso que prefiro o termo designer, apenas) em produtora digital e os passos são bem respeitados. Todos eles são seguidos, toda a estrutura é bem feita porque quero um projeto bem feito. O cálculo é simples e certeiro, como deve ser uma conta de boteco bem feita. Não existe anjo salvador nem pacto com capeta.

Pode até parecer bobagem, mas me deparo com muitos que não conseguem entender como funciona a Matemática dos Danos. Aliás, Matemática dos Danos é um termo que criei pra definir isso, não está nos melhores livros de matemática do mercado, nem foi dito numa palestra do TED, nem escrito em algum Kotler. Funciona assim: Um projeto deve ser feito. Pra que ele fique como deve ser são necessárias, por exemplo, 100 horas de trabalho. Se você inventar de querer fazer em 50 horas, algo vai se perder do processo: ou o projeto não vai ficar como deve, ou ficará errado, ou ficará incompleto, ou precisará ser refeito, vai custar mais grana, quebrar mais pra frente e precisar ser estruturado como se deve (ou devia ser feito de cara). Se alguma etapa do processo for removida pra “adiantar”, algo vai atrasar depois.. Pela Matemática dos Danos, como dizem por aí, é preto no branco. Ou vai ou não vai. Se for como deve, ok, se não for, algo vai ser perdido (além do tempo…) e, novamente, não vai ter reza que solucione.

Você pode ser dessas pessoas mais felizes que não ligam pro trabalho e o tocam apenas como algo de baixa importância na vida. Você sim, é feliz. Pra quem é, como eu, que sempre procura melhorar profissionalmente e “sofre” com o que há de errado por aí no mercado, participar sempre de processos e projetos dentro da Matemática dos Danos é um indício quase que definitivo que onde você trabalha não é um lugar interessante pra ti.

Pergunto: Qual tua relação com processos dentro da Matemática dos Danos? Qual foi o pior? Como resolve isso?

O “visual designer” e o panachê de legumes

Panachê de legumes Me surpreendi a primeira vez que vi. Lá no restaurante a quilo que eu almoçava não tinha mais os deliciosos legumes no vapor. Simplesmente desapareceram da bancada. No lugar dele tinha um tal de panachê de legumes. Caceta, como eles se pareciam visualmente. Arrisquei e, com o pegador, me servi de uma pequena porção, seja lá o que fosse. O sabor era exatamente o mesmo dos famigerados legumes no vapor. Com o passar do tempo resolvi aceitar o novo nome e almoçava normalmente, como se nada tivesse ocorrido. Mas, de certa forma, ocorreu. Não sei qual foi o fenômeno, mas LEGUMES NO VAPOR, talvez, não parecesse tão gostoso quanto PANACHÊ DE LEGUMES. O mesmo aconteceu quando o meu pai comeu a primeira vez um filé de saint peter. “Que nome é esse? Isso é tilápia“, reclamava meu bom e velho genitor. É, Seo Rodolfo, é tilápia vermelha, sim, daquelas que a gente pescava no sítio do Mirto em Cambuí (MG), lembra? Sei lá que infernos ocorreram no planeta e PIMBA!, tilápia sai de campo e entra de volta, com gel no cabelo e decidiu ser chamada de saint peter. E “ai” de quem não chamar assim.

Meu finado e saudoso cachorrinho, o Leitão, nasceu cachorro em 1991 e morreu cachorro em 2009. Tem alguns por aí que nascem cachorro e misteriosamente se transformam em pet. O creme de abacate se transformou em creme de avocado.

Esses tempos eu descobri que mudei de profissão sem ter feito absolutamente nada. Isso mesmo. Num dia eu era designer, especializado em mídias digitais, de repente noutro eu era “visual designer” ou “front end design”. HEIN? Me querem disfarçar de saint peter, me querem de panachê de legumes. As vezes os termos ganham subdivisões estranhas. Oitocentos trilhões de divisões no rock tipo heavy metal. Todas as variações da Igreja Presbiteriana. Os legumes no vapor e o panachê de legumes. São citados como outros seres, quase alienígenas, parecem algo totalmente novo, que não fazem parte do mesmo império, domínio, reino, filo, classe, ordem, família, gênero nem espécie, como diria nosso amigo Lineu e sua taxonomia marota.

Ok, ok, aceito, as segmentações são necessárias conforme as mudanças ocorrem e, como temos infinitas mudanças dessas por ano, é aceitável que algumas subdivisões apareçam. Uma ou outra. Só. Agora tá uma festa. A festa das terminologias felizes que muitas vezes não são bem explicadas nem por quem ocupa as vagas, nem por quem contrata. Dá uma olhada no número de vertentes que tem dentro do design de interaçãoarquitetura de informação, designer de interação, human-interection designer… Talvez um dia cheguemos no que disse Alexandre Wollner muitos anos atrás, sobre os “designers de pão-doce”. Já tem de bolo, quase lá. Ainda não sabem definir o que é design, mas a vida segue mesmo assim.

Prefiro prosseguir, se o mercado me permitir ou não, como designer especializado em mídias digitais e que atua como designer especializado em mídias digitais. E já tá bem bom.

Receita de panachê de legumes

Ingredientes:
1 xícara de cenouras fatiadas em rodelas
1 xícara de buquês de brócolos
1 xícara de vagens fatiadas em rodelas
1/2 xícara de água
1 colher de manteiga sem sal
1 sal a gosto

Modo de preparo:
Cozinhe os legumes com água e sal no microondas por aproximadamente 8 minutos. Eles devem ficar bem macios. Salteie-os na manteiga. Podem ser servidos com parmesão ralado por cima. Couve-flor e batatas também podem compor bem o panachê, vale tentar 😉

Dica:
Anote a receita com o título a lápis. Quem sabe o nome da receita muda novamente, né?

 

Como fazer um brainstorm

Como fazer um brainstorm? Como fazer um brainstorming?

1. Tempo de brainstorming

O brainstorm é bem gostoso de ser feito mas não pode durar pra sempre. Defina um tempo pra que ele aconteça de acordo com o projeto. Nunca vi um padrão muito rígido pra isso, ora são de 10 minutos, ora de 30, ora de 60. Cada profundidade do tema deve ser abordada e tratada de uma maneira.

2. Um de cada vez

Como todos querem chover as ideias, fica bem fácil rolar uma inundação e ninguém ouvir nada com todos falando junto. É importante que cada um fale de uma vez para que todos possam compreender certinho cada uma das ideias durante o brainstorm. É um método conjunto e as peculiaridades são a diferença.

3. Foco (e nada de blur!)

A novela tava legal? O time deu uma goleada? Fale de tudo isso, mas NÃO durante o processo de brainstorming. Vai pro boteco depois, sei lá. AQUI É FOCO! A imersão no tema é necessário para que as ideias fluam com mais naturalidade e perder tempo com outros assuntos é o que chamariam de “tiro no pé”.

4. Quantidade é essencial

Fazer julgamentos ou cortar um colega durante o brainstorm não é nada interessante. É, como o nome diz, uma tempestade de ideias. Deixa chover tudo que tiver, depois verifica se dá ou não pra fazer, se terá dinheiro ou não, se o departamento de TI vai ou não entregar na data…

5. Co-criação e interdisciplinaridade

Por mais absurdas possam ser algumas ideias é importante que se trabalhe em cima delas. Mais gente trabalhando uma ideia significa mais chances dela se adaptar ao projeto e concretizar bem o brainstorm. Tornar as ideias gráficas ajuda muito a compreensão geral e misturar diferentes profissões e disciplinas também: o design thinking que o diga!

6. Censurar é censurado!

Aqui não é permitido censurar. A ditadura militar no Brasil acabou em 1985. Se quiser fazê-lo, faça em casa com teu filho, irmão menor, sei lá.

7. Documentar o brainstorm

Depois de 3 minutos de muitas ideias ninguém lembra das primeiras. Isso se repete durante todo o brainstorm. Deixe um responsável em anotar as ideias, entregue post its para cada membro, grave o áudio e/ou o vídeo (afinal de contas os smartphones devem ser usados de maneira “smart”, não?), enfim, existem mil maneiras de documentar o que foi trabalhado.

8. Tabulação das ideias

De quase nada adianta um bom brainstorm se ele não for tabulado, dividido em clusters e preparado para algo como um pós-brainstorming, onde todas as ideias reunidas, as principais escolhidas, estudadas, e organizadas para se tornarem algo concreto. É como uma peneira: tudo foi aceito mas no final sai o que é mais relevante. O que não foi usado pode ser engavetado, nunca sabemos quando podemos retomar as ideias ou juntar parte da discussão desse projeto com outro ou outros diferentes. É muito papel pra guardar? Tudo bem, organize, fotografe e mande pro lixo reciclado.

E você? Tem mais dicas para um bom brainstorm? Deixe nos comentários, vamos co-criar!

Os casos de design mais improváveis do mundo

Claro que esses meus não são os piores do mundo, mas vou contar alguns casos que soam improváveis mas eu dou minha palavra que aconteram comigo. Sim, comigo, não foi com meu vizinho, nem primo, nem colega, foi comigo, do jeito que vou colocar. A ideia é que essa lista, infelizmente, aumente conforme eu ouvir mais. E quanto pior, melhor. É daquelas que você passa a ter certeza que fez fralda com o Santo Sudário em alguma outra vida.

1. Os wireframes são para os fracos

Contexto: eu mostrava todos os passos pra criar o projeto de um cliente, dos primeiros rabiscos aos wireframes, ajustes e os layouts, depois os layouts finais e site no ar.

A frase matadora: Não, não, eu não quero esses. Faça o orçamento só com os finais (os layouts), esse restante é besteira.

2. O designer vidente

Contexto: Eu aguardava o responsável me enviar alterações de texto de uma interface. De repente pisca o MSN Menssenger:

Fulano de tal says (15:28:12):
Cara, você já alterou os textos que falamos da tela de login?

Rogerio says (15:28:56):
Não, você falou que ia mandar no email, não chegou nada. Você mandou? O restante tá pronto…

Fulano de tal says (15:29:40):
Não mandei, mas você precisa entregar logo, estamos atrasados.

(????????)

3. Cabeça de usuário

Contexto: eu apresentava uma proposta de interface e justificava as escolhas

A frase matadora: Acho que não vai funcionar. Pensando com a cabeça do usuário eu não clicaria ali.

(E porque raios gastam tanta grana com testes de usabilidade se dá pra pensar como o usuário?)

4. O jornalista-programador

Contexto: eu com um companheiro de trabalho apresentávamos um hotsite e justificávamos porque uma das solicitações não seria possível implementar por falta de recursos tecnológicos no mundo (o pedido era extremamente absurdo)

A frase matadora do editor: Como não dá? Não é só fazer um “if” na programação?

5. Marcha redatora, cabeça-de-papel…

Contexto: a redatora-chefe da revista vinha palpitar no site. Ela não sabia nem mandar email por webmail. Daí ela pediu na home um “ponto de interrogação cercado de palavras, como os designers da revista fizeram em uma matéria xis”. Eu perguntei pra que serviria e pra onde essas palavras linkariam quando clicadas.

A frase matadora: Não vai linkar pra lugar nenhum. Quem quiser saber dessas palavras ou vê na edição da semana (da revista impressa) ou procura na busca do site. Não tem que ter link em tudo…

6. O grid tipográfico e o editor-glamuroso

Contexto: Junto com o outro designer, confeccionei um grid quase que infalível para o novo site, todo baseado em tipografia, proporção áurea, tudo se encaixava perfeitamente, os módulos poderiam ser trocados de lugar por conta das proporções. Depois de apresentar pro editor (de texto) glamuroso:

Editor-glamuroso: Essa é a fonte do UOL?

Eu: Não. A fonte do UOL é Arial, a nossa base do site é com a fonte xis, todos os módulos só podem ser personalizados porque com ela os textos todos cabem direitinho, fizemos testes com os dez maiores textos de cada bloco, a migração do atual pra esse não terá problema desse jeito e somente desse jeito vai rolar.

Editor-glamuroso e a frase-matadora: Mas essa é a fonte do UOL?

7. A newsletter

Contexto: o chefe do chefe manda um email com uma newsletter do New York Times ruim de doer, de uns três anos antes e cheia de textos (eu trabalhava num portal de viagens, cheio de fotos) e me pergunta:

Chefe: Roger, podemos ter uma newsletter igualzinha a essa?

Eu, num acesso de ironia: Podemos sim. Aliás, deixa eu mudar pelo menos o logo pro nosso?

Chefe-do-chefe: Sim, muda só o logo mas tenta deixar o fundinho branco também. (ele realmente achou que minha pergunta foi séria…)

8. Aprenda comigo, sou biblioteconomista

No final de um expediente, uma antiga chefe/dona da empresa me chama, aos berros:

– Rogérioooooooooo

– Oi, Fulana, precisa de algo?

– Olha esse material (e me entregou uma brochurazinha extremamente bagacenta, mas MUITO mesmo)

Eu, provavelmente arregalei os olhos o máximo que os orbiculares permitiram e nada falei, tamanho era o susto com o material que havia pegado. Ela, com olhar orgulhoso e tom professoral, me disse:

– Fui eu que fiz. E sabe? Usei o Paint e o Word. (a frase matadora:) Tá vendo como dá pra fazer coisas muito boas sem usar essas ferramentas que vocês usam? Você deveria prestar atenção nisso…

(E eu, claro, permaneci em silêncio e, provavelmente, descobri que conseguia arregalar mais ainda os olhos…)
Nota: me lembrei desse post nesse instante

9. Aprenda comigo, sou biblioteconomista 2 – Absurdos 2 em 1

– Rogérioooooooooo

– Oi, Fulana, precisa de algo?

– Foi você que fez esse material na cor vermelha?

– Sim, fui. Algum problema com ele?

(a frase matadora 1) – Você tá cansado de saber que nossa impressora não imprime bem o vermelho! (??????????) Como você faz um material inteiro vermelho?

– Mas Fulana… A cor do logo deles é vermelha, toda comunicação é vermelha, o site, tudo…

(a frase matadora 2) – Não interessa, por que você não fez na cor azul? Laranja?

10. Um site (literalmente?) matador

Contexto: o briefing de um projeto digital era passado pra mim

– Rogério, precisamos começar logo o projeto XYZ

– Ah, legal, eles mandaram material, tem um briefing?

– O cliente quer que quando o usuário entre no site, ele se sinta no céu.

– =~~~~~~~~~~~~~~~~~

E fui eu quem quase viu o céu e São Pedro me olhando e dizendo:
– Desce!

E você, o que me conta?

Quais foram os casos improváveis que presenciou? Bote pra fora essas pérolas nos comentários, é bom pra desopilar o fígado e previnir infartos e outras doenças cardíacas.

A internet não-internet

Que o conceito de internet nasceu pra compartilhar informações já não é segredo nem novidade pra ninguém. Tudo bem que eram informações de guerra, mas a ideia era disseminar as informações. Claro que houve adaptações daqui e dali, muita coisa mudou, muito tempo ficou pra trás, mas a base da rede ainda é a troca de informações. É evidente que junto dessa troca de informações toda apareceram muitos conteúdos ilegais, textos, fotos, músicas e vídeos, mas acredito que processos dessa natureza devem ser revertidos depois como evolução. É só olhar as MP3 vendidas em diversas lojas online. Será que hoje em dia teríamos tocadores de MP3 em todo lugar se não tivessem sido tão ferozmente difundidas ilegalmente? Repare nos filmes alugados e vendidos direto nos dispositivos móveis como celulares e tablets, nas smart TVs, nos videogames e tocadores de bluray. E também o conceito de Torrent e tantos outros modos de passar os arquivos de um canto pra outro, como os discos virtuais, as nuvens, os emails que permitem cada vez mais armazenamento e transferência. Me lembro quando o Hotmail permitia, no máximo, 500kb por mensagem enquanto agora o Yahoo Mail, por exemplo, permite 50 vezes mais. De um modo ou de outro as informações, legais ou ilegais, pagas ou gratuitas passam de um lado para o outro.

Tenho notado que provavelmente por conta dos negócios a internet como era está virando outra coisa. Algo um pouco estranho mas que se explica na necessidade de grana, como sempre. Reparem como as informações na rede tem sido duplicada. É complicado encontrar o “vídeo original” no Youtube com tanta gente querendo ter aquilo também em seu canal, como se fosse seu. Os blogs replicam infinitamente as imagens de outros e muitos ganham com isso via publicidade. Se transformaram em pequenas maquininhas de grana e conteúdo de baixo nível de produção de conteúdos. Replicam mais que máquina copiadora, mas produzir, nada. Veja o meu, por exemplo, que porcaria. E os grandes portais? Milhões de dinheiros envolvidos em cada pedacinho deles e ainda assim não creditam com link as fontes das imagens e dos textos. Galerias e galerias de fotos são criadas com fotos provenientes de um “Salvar imagem como…“, os pageviews aumentam, os anúncios ficam mais caros e o sujeito que produziu aquilo não ganha nem um linkzinho sequer de volta. Só um texto mirrado, na maioria das vezes, de canto. Fonte: Fulano de Tal. Quem quiser que procure no buscador de sua preferência. E viva a não-usabilidade.

Não sei se minha visão é chata demais, crítica demais ou sem noção demais. Mas sei que a ideia de dividir, compartilhar conteúdo como seria bem legal, seja pago ou grátis, está cada dia mais escondida no meio dos negócios e da necessidade de ganhar dinheiro a todo custo.

Enquanto isso eu prossigo aqui, produzindo meus conteúdos e repartindo o que posso, inclusive minhas dúvidas. Alguém mais no clube?

A incrível arte de omitir elementos

De incrível isso não tem nada, muito menos tem de arte. O que é admirado nos benchmarks (aliás eu até brinco com isso aqui), a sensação de “clean” sempre colocada à mesa pelos mais empolgados, o poder de ir direto ao ponto e as facilidades do que é mais utilizado estar sempre à mão é simplesmente esquecido na hora de planejar e refinar um projeto. Coloca um botãozinho aqui, enfia uma listinha ali, arruma espaço pra um link patrocinado acolá. Em dois ou três movimentos você sai do estado inteligível quando se bate o olho num projeto e vai pro estágio esquizofrênico, cheio de opções, para atender todas as pessoas do planeta que são ou não público alvo, afinal de contas dá pra encontrar referência de tudo que é bom na internet, mas mesmo assim muita gente insiste em pegar as piores, descontextualizadas ou misturar diversos benchmarks sem o critério de adaptá-los ou reformatá-los para o projeto desenvolvido. Ou tudo junto. Na cabeça dessas pessoas tudo precisa estar presente, o que é prioridade mil e a zero. Tudo ali, pronto para alguém clicar, como se alguém fosse mesmo.

– Mas por que esse elemento tá aqui? Ele não ficava lá do outro lado…?

– Eu acho bom ficar onde está agora, eu pedi pra mudar. Por exemplo eu tenho um vizinho com sete dedos na mão direita e ele clica com mouse meio de lado, seria ideal essa opção estar aí assim.

E aí entram discussões infinitas pra não falar de nada útil.

Quando você vai à uma pizzaria e o cardápio tem 180 sabores de pizza, eu duvido que você leia todos antes de escolher. DUVIDO mesmo. Provavelmente aquele que tem 20 sabores será devidamente analisado, sem preguiça e sem demandar três horas e meia pra fazer o pedido pro garçom. E a escolha vai ser precisa, exatamente o que quer. É a valorização da diversidade sem cair no exagero. Uma pizzaria típica em São Paulo não precisa ter opções que atendam o gosto de um vietnamita que quer desfrutar de um sabor especial de pizza baseado nos sabores e ingredientes da cultura de seu pais e ainda que não tenha glúten. Se um vietnamita nessas condições quiser comer algo assim, não é numa pizzaria típica em São Paulo que ele deve procurar (e nem vai achar caso o faça). Por que num projeto digital as coisas nem sempre funcionam assim?

Eu arrisco uma resposta…

A falta de planejamento dos produtos, as reuniões que nunca resolvem nada, a falta de brainstorms feitos de maneira correta (quando são feitos…), não existir um gerenciamento efetivo dos processos criativos, a grande quantidade de profissionais desqualificados que nem sabem do que o suporte é capaz e nem o que querem de fato proporcionam quase 100% dos casos interfaces mal resolvidas e muito mais elementos que qualquer pessoa do mundo (e de for a dele também) pode analisar e clicar. O produto reflete a equipe que o fez. Mais cedo ou mais tarde isso aparece e, muitas vezes, é irremediável.

Tem alguma outra resposta pra minha pergunta? Os comentários agradecem.

Os “espaços em branco” da vida real: Cadê?

É de comum conhecimento que produtos com espaços coloquialmente chamados de “áreas de respiro” se fazem mais confortáveis visualmente para quem os consome, assim como podem proporcionar melhor percepção, entendimento e até interação, seja uma revista, um livro, um controle remoto de home theater ou um smartphone. Uma oferta muito grande de opções pode gerar confusão ou desvalorização do todo. O Mc Donald’s, por exemplo, notou lá no comecinho que se simplificasse o cardápio e padronizasse os sanduíches evitaria que os clientes tivessem dúvidas na hora de fazer o pedido e o atendente da cozinha, por sua vez, teria menos dificuldade de prepará-lo (quem quiser saber mais sobre isso dê uma olhada no livro Design de Negócios, de Roger Martin, Editora Campus. O John Maeda, em uma de suas Leis da Simplicidade, fala sobre reduzir o número de itens, só mostrar o necessário e eu sou adepto disso, acho que dá pra notar aqui no DESIGNICES a valorização do espaço em branco para a pausa, reflexão, pra retomar o pensamento e, quem sabe, arriscar um comentário. Já até fiz um post só pra falar da falta de espaços em branco na internet.

Mas e na cidade em que moramos, como isso tem se mostrado?

Tem cinco anos que aqui em São Paulo uma lei chamada Cidade Limpa removeu a poluição visual pelas ruas padronizando as fachadas e proibindo outdoors, faixas e afins. O Marco Moreira mostrou bons exemplos disso, vale conferir aqui e aqui. E o Rio de Janeiro tá entrando nessa também, para a alegria dos olhos de quem passeia e nota a cidade, sem parecer que você mora num jornal de classificados.

Acontece que se por fora houve o suposto cuidado de não nos soterrar com marcas e anúncios, aos poucos, os ambientes internos estão cada vez mais lotados de informação como se fosse pra compensar o que se proibe nas ruas. Não tem mais momento de reflexão no que foi visto, não tem mais pausa pra pensar na vida: sempre há algo pra ver, além dos smartphones pipocando notícias, emails e alertas de redes sociais em tempo integral. E esse último “sempre” usado acima se torna cada vez mais, infelizmente, quase que literal.

Perceber como a cultura visual das pessoas pode apodrecer com tamanha quantidade de informação me preocupa. Acredito até que de alguma forma prejudique nossa profissão, já que a desvalorização da exclusividade de informação (seja ela qual for, até mesmo a publicitária) tende aumentar já que segundos depois algo novo toma o lugar do que, precocemente, vai ser chamado de antigo. Em trinta minutos caminhando na hora do almoço mais de uma dezena de informações foram metralhadas na cara dos “usuários da cidade”. Impossível lembrar da primeira, da segunda, da quinta. O Metrô, que era limpo visualmente, tem até propaganda na catraca. Elevadores tem a atenção dividida entre as tvs com anúncios irrelevantes e emails (duvido que tão urgentes assim que não podem aguardar até a chegada na mesa) nos iPhones, Blackberries e Androids. Telas nas praças de alimentação. Nem escada rolante escapa mais. Tá difícil a coisa, viu?

Para mostrar o que me refiro, saí caminhando na hora do meu almoço e dando cliques com o celular (por isso as fotos não estão lá essas coisas) o que vi em poucos metros. A sobreposição e acúmulo de informações além da falta de cuidado com elas me assusta e tenho certeza que muita gente não dá mais conta disso porque foi acostumando e agora parece tudo normal, por mais absurdo que pareça.

No Metrô Linha Amarela de São Paulo, o mais nova da cidade, a sinalização é muitas vezes feita assim, com pincel atômico, com rasura e papel colado por cima. Bem legal para uma obra de tantos milhões investidos.

Cartaz de sinalização do Metro Linha Amarela

Os elevadores (à esquerda), dos poucos lugares que as pessoas não tem pra onde correr, tem telas pra tomar a atenção. E um roubo de atenção mais que idiota, nesse caso é pra falar das tais fotos roubadas da Carolina Dieckmann nua. Ao passar na catraca do Metrô (à direita) tem publicidade aplicada, afinal de contas é muito gostoso tomar iogurte na multidão.

Fotos da Carolina Dieckmann e publicidade na catraca do Metro

Essa sequência de três telões frente-e-verso (acima) mostrando as mesmas imagens é totalmente desnecessária. Por que não um só? Depois dos telões (abaixo), uma tremenda confusão de foco de informação: Sinalização do shopping no alto, telão gigante no meio e placa no chão com o horário de funcionamento (e além de tudo você tem que descer uma escada). Shopping Nações Unidas / Shopping D&D, São Paulo.

Sequência de telões no Shopping Nações Unidas

Na hora do almoço nem o cardápio escapa: O Bar da Devassa na região da Berrini, em São Paulo, remenda os preços com etiquetas à caneta. Coisa linda de fazer quando se está cercado de grandes empresas e hotéis caríssimos.

Cardápio remendado do Bar da Devassa, na região da Berrini, São Paulo

No caminho pro cafezinho um estupro visual: Escada rolante inteira envelopada da HP. Pra quem a desce não dá mais pra ver a arquitetura do lugar nem o jardim: banner da mesma campanha tapa toda a visão.

Escada rolante com publicidade da HP

Tomar um café, relaxar e se preparar para o famoso “segundo tempo” também não escapa do acúmulo de informações. Além das telas, na mesa também tem tentativas de vender mais. Essa é da Ofner.

Café com publicidade na mesa, na Ofner

Claro que existem mais N exemplos, mas acho que já dá pra parar por aqui.

Bom, pelo menos na região central/comercial aqui em São Paulo a coisa anda assim, feia. Imagino que uma hora isso vai transbordar e algo precisará ser feito. Enquanto isso não ocorre você poderia deixar nos comentários:

1. O que acha dessa enxurrada de informações?
2. Onde ir pra ter um momento de “área em branco”?
3. Como isso pode influenciar na nossa profissão?

Manda bala, tem bastante espaço em branco aqui embaixo pra você refletir 😉

Carro design, hotel design, objetos design?

Sempre vejo propagandas de “produtos design”. Produtos que nas suas próprias naturezas já são resultado de um projeto de design evidentemente envolvido com outras áreas. Daí tenho acompanhado esse carro (um belo carro da Kia, por sinal) chamado Soul e que é vendido  como “carro design”. E tem hotéis design (como o “Hotel Unique-Melancia” aqui em São Paulo), objetos design, capas de celulares e tablets design e assim vai. Tudo design. E por acaso como é um carro sem design? Existe? Os outros não tem design, então? O Fiat Uno, o Ford Ka, o Volkswagen New Beetle poderiam ser vendidos também como carros design?

Pra quem tiver na dúvida, leia antes algumas boas definições sobre O que é design, que atualizo sempre com o que encontro por aí de interessante.

Concordo que o projeto do Kia Soul é realmente diferente do que se tem por aí atualmente, o que lhe dá uma certa personalidade no mínimo exótica e as vezes, usando um lindo termo de briefings vazios, criativa. Assim como o hotel. Assim como todo o resto. Percebo que a palavra design tem sido empregada nesses casos estranhos. Seria design o termo correto? O que isso pode acarretar pra quem ouve o termo e não é da área?

Kia Soul, o carro design

No descritivo do site temos detalhes curiosos também, provavelmente propostos e lapidados por quem tem que vender a qualquer custo e não precisa nem conhecer o produto e seu entorno. Esse é o máximo: “por fora o carro esbanja estilo e seu desenho desafia conceitos”. Ah, é? Quais conceitos? Fiquei curioso.

Será que falar que um carro de projeto exótico é um carro design ajuda ou atrapalha no entendimento da profissão de designer? Será que vira um sinônimo de algo criativo e peculiar ou apenas algo exótico e que não agrada todo mundo? E o restante dos carros do planeta que não seguem esse padrão, será que perdem o caráter projetual de design que eles têm? Uma Ferrari não seria um carro design também? E um Cadillac? E um Shelby Cobra? Nossa, quantas perguntas…

Ah, eu adoro o Kia Soul, acho lindo mesmo. Por sinal, se alguém da Kia ler post e quiser me dar um de presente, vou adorar. Vermelho, por favor. E pelamordedeus, já que gostam tanto de usar o design, pensem também no design principalmente o de interação do site. É ruim de dar azia.

Sei que já usei muito mais pontos de interrogação do que deveria nesse post, mas a ideia é a mesma de sempre, questionar. Então é o que vou fazer: O que você acha da denominação carro design e tudo-exótico-design? Ajuda ou atrapalha no entendimento da profissão e da função do design?

Comerciais vintage de Corn Flakes da Post

Comerciais vintage são sempre interessantes. Curioso perceber as peculiaridades da falta de recurso pra fazer uma “macro”, da ausência de trilha sonora, de crianças correndo e dando cambalhotas mortais na cozinha pra mostrar a vitalidade que o produto supostamente entrega. No lugar de tudo isso tem uma moça apresentando, se deliciando com os cereais matinais e rapidamente interagindo com a voz em off. Fora as referências visuais da embalagem, da roupa, dos móveis e do ritmo do comercial. Interessante também é notar as imperfeições da caixa, como é uma caixa de verdade quando compramos, e não necessidade da perfeição utópica de tudo que vemos hoje anunciado.

Aí vieram os anos 1960, as agências de publicidade “faca na caveira” e acabaram com tudo…

Os vídeos desses comerciais foram encontrados no site www.archive.org, com conteúdo de domínio público.