O que é design?

Reuni respostas em livros pra essa pergunta, talvez a mais debatida e menos respondida nos cursos de design. Junto das definições, em alguns casos, se torna necessário citar também a origem histórica do termo, para contextualizar melhor as definições.

O que é design? Por Alexandre Wollner

O pioneiro do design no Brasil definiu design no livro “Textos Recentes e Escritos Históricos“, das Edições Rosari, página 91:

“Uma definição de design… É muito difícil, porque a evolução da linguagem, dos elementos técnicos é tão rápida que se fala de uma coisa hoje e ela é diferente amanhã. Mas a gente pode dizer que é dimensionar uma estrutura onde todos os elementos visuais nos vários meios de comunicação visual. Não é só fazer uma marquinha sem se preocupar com o comportamento que essa marca vai ter em todo o contexto, não só da indústria, mas também da comunicação visual. Ela precisa estar baseada em toda uma estruturação e prever aplicações bastante coerentes. Essa  é a proposta do design, que não está preocupado com a estética, mas com a função, com materiais, com a ergonomia visual, com aplicações planas e não planas. Deve saber, por exemplo, como uma embalagem redonda se comporta, como ela pode ser fragmentada e como a públicidade vai ser usada dentro dessa estrutura. Um trabalho de design gráfico deve durar no mínimo vinte a trinta anos, Um logotipo não perde a atualidade, e a potencialidade está em torno desse sinal, desse elemento”.

Já no livro+DVD da Cosac NaifyAlexandre Wollner e a formação do design moderno no Brasil” (leia o post) tem um capítulo guardado só pra essa questão. O video a seguir é desse DVD, cedido gentilmente pela sua produtora, a Tecnopop (www.tecnopop.com.br)

O que é design? Por Beat Schneider

O professor de história da cultura e do design define design em sua obra “Design – Uma Introdução. O design no contexto social, cultural e econômico” (2010), página 197, da Editora Blücher:

“Design é a visualização criativa e sistemática dos processos de interação e das mensagens de diferentes atores sociais; é a visualização criativa e sistemática das diferentes funções de objetos de uso e sua adequação às necessidades dos usuários ou aos efeitos sobre os receptores”.

Com o processo de industrialização no século XIX, as construções apareciam em velocidade assombrosa: surgiam escolas, fábricas, lojas, edifícios de parlamento, hospitais, estradas de ferro, hotéis etc. Descobrir como utilizar novos materiais para suprir toda essa demanda era essencial, assim como criar processos mais eficazes. Os engenheiros da época foram os responsáveis por introduzir nos projetos ferro fundido, vidro, aço e concreto, sendo, por isso, considerados – e não os arquitetos – os primeiros designers (SCHNEIDER, 2010, p. 19).

O que é design? Por Helena Katz

Do capítulo Corpo, design e evolução, no livro Disegno. Desenho. Desígnio, da Editora Senac:

“Design é a organização das partes de um todo, de um modo que os componentes produzam o que foi planejado. Só que esse arranjo é sempre improvável, seja o design de algo extraordinário ou não. E isso ocorre porque o número de modos pelos quais as partes podem ser combinadas é excessivo. Cada arranjo não passa de uma quantidade enorme de possibilidades. Ou seja, cada arranjo realizado é tão improvável quanto todos os outros, não realizados.”

O que é design? Por Mônica Moura

Na página 118 do livro “Faces do Design” (leia o post) das Edições Rosari, a designer, artista plástica, mestre e doutora Mônica Moura define:

“Design significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa designar. É trabalhar com a intenção, com o cenário futuro, executando a concepção e o planejamento daquilo que virá a existir. Criar, desenvolver, implantar um projeto – o design – significa pesquisar e trabalhar com referências culturais e estéticas, com o conceito da proposta. É lidar com a forma, com o feitio, com a configuração, a elaboração, o desenvolvimento e o acompanhamento do projeto”

O que é design? Por Rafael Cardoso

De acordo com Cardoso, em Uma Introdução à História do Design (2008), Editora Blucher, “[…] a origem mais remota da palavra [design] está no latim designare, verbo que abrange ambos os sentidos, o de designar e o de desenhar”. Na mesma obra, Rafael Cardoso, o design é consequência de três processos globais históricos interligados, que ocorreram entre os séculos XIX e XX:

  • a industrialização, que precisava reorganizar como os produtos seriam comercializados a fim de atender mais consumidores e ganhar variedade de escolhas;
  • a urbanização moderna, responsável por adequar as grandes metrópoles às grandes concentrações populacionais;
  • a globalização, que integra a comunicação com redes de transporte e com o comércio e possui sistema financeiro e jurídico para regular todo o seu funcionamento.

Cada um dos três processos precisou organizar diversos fatores díspares, como fábricas, pessoas, veículos, leis, tratados etc. O termo design ganhou, de maneira ampla, possibilidades de preencher os espaços entre cada um desses fatores (CARDOSO, 2008, p. 22-23).

O que é design? Por Vilém Flusser

Em “O mundo codificado“, da Cosac Naify , o autor define primeiro a palavra design como verbo e substantivo, na páigna 181:

“Em inglês a palavra design funciona como substantivo e verbo (circunstância que caracteriza muito bem o espírito da língua inglesa). Como substantivo significa entre outras coisas: ‘propósito’, ‘plano’, ‘intenção’, ‘meta’, ‘esquema malígno’, ‘conspiração’, ‘forma’, ‘estrutura básica’, e todos esses significados estão relacionados a ‘astúcia’ e a ‘fraude’. Na situação de verbo – to design – significa, entre outras coisas ‘tramar algo’, ‘simular’, ‘projetar’, ‘esquematizar’, ‘configurar’, ‘proceder de modo estratégico’. A palavra é de origem latina e contem em si o termo signum, que significa o mesmo que a palavra alemã Zeichen (‘signo’, ‘desenho’). (…) ”

Depois, Flusser explica o que se tornou o vocábulo design, na página 184:

“(…) design significa aproximadamente aquele lugar em que arte e técnica (e, conseqüentemente, pensamentos, valorativo científico) caminham juntas, com pesos equivalente, tornando possível uma nova forma de cultura”

O que é design? Por Lucy Niemeyer

O livro da Editora 2ABDesign no Brasil: Origens e instalação” tem um capítulo só pra origem e significado do termo design. Na introdução do capítulo a Doutora Anamaria de Moraes cita a própria Lucy definindo design:

“(…) ao longo do tempo o design tem sido entendido segundo três tipos distintos de prática e conhecimento. No primeiro o design é visto como atividade artiística, em que é valorizado no profissional o seu compromisso com artífice, com a fruição do uso. No segundo entende-se que o design como um invento, um planejamento em que o designer tem compromisso prioritário com a produtividade do processo de fabricação e com a atualização tecnológica. Finalmente, no terceiro aparece o design como coordenação, onde o designer tem a função de integrar os aportes de diferentes especialistas, desde a especificação de matéria-prima, passando pela produção à utilização e ao destino final do produto. Neste caso a interdisciplinaridade é a tônica. (…) estes conceitos tanto se sucederam como coexistiram, criando uma tensão entre as diferentes tendências simultâneas.”

O que é design? Por John Heskett

Citado por Dan Saffer, no livro Designing for Interaction – Creating Smart Applications And Clever Devices, editora New Riders, página 6:

“Design is to design a design to produce a design”*

* Pela brincadeira e pelo trocadilho com o termo design, eu não poderia traduzir essa definição para não perder o sentido

O que é design? Pelo Dicionário Michaelis

(dizáin) sm (ingl)
1 Concepção de um projeto ou modelo; planejamento.
2 O produto deste planejamento.

O que é design? Pelo Dicionário Houaiss

Rubrica: desenho industrial.
1. a concepção de um produto (máquina, utensílio, mobiliário, embalagem, publicação etc.), esp. no que se refere à sua forma física e funcionalidade
2. Derivação: por metonímia.
o produto desta concepção
3. Derivação: por extensão de sentido (da acp. 1).
m.q. desenho industrial
4. Derivação: por extensão de sentido.
m.q. desenho-de-produto
5. Derivação: por extensão de sentido.
m.q. programação visual
6. Derivação: por extensão de sentido.
m.q. desenho (‘forma do ponto de vista estético e utilitário’ e ‘representação de objetos executada para fins científicos, técnicos, industriais, ornamentais’)

Locuções
d. gráfico
Rubrica: desenho industrial, artes gráficas.
conjunto de técnicas e de concepções estéticas aplicadas à representação visual de uma idéia ou mensagem, criação de logotipos, ícones, sistemas de identidade visual, vinhetas para televisão, projeto gráfico de publicações impressas etc.

Etimologia
ing. design (1588) ‘intenção, propósito, arranjo de elementos ou detalhes num dado padrão artístico’, do lat. designáre ‘marcar, indicar’, através do fr. désigner ‘designar, desenhar’; ver sign-

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A intenção é sempre atualizar esse post com as definições que cruzarem meu caminho. Mas me diga, você tem alguma definição pra o que é design? Discorda de alguma das que eu selecionei? Então deixa nos comentários! 🙂

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Função do design x função do designer

Misturando café com Design

Quando cheguei à empresa, muitos desafios me aguardavam, mas um deles era o mais desafiador: fazer a empresa (toda) entender o que a equipe de Design fazia. Como explicar o que era possível ser feito pela minha área sem que houvesse reuniões, apresentações formais ou qualquer outra formalidade? A solução veio, com café. E foi bem eficaz.

Quase toda grande empresa tem máquinas de café, dessas que a gente usa pra sair da mesa e desopilar os pensamentos. O café dessas máquinas, claro, não serve para ser um café de verdade. Serve pra pausa, para encontrar outros funcionários, para se preparar para o próximo trabalho. E foi nessa brecha que eu agi: na primeira semana de trabalho, levei uma garrafa térmica, café em grão, um moedor elétrico, coador e filtros de papel. Fiz café na minha mesa, as pessoas olhavam com cara de “hein?” e o cheiro tomava conta de parte das baias. Minha equipe foi convidada a pegar café (claro, todos pegaram) e os que olhavam eram convidados também. Alguns se aproximaram, pegaram um copinho. Eu repetia esse procedimento pelas 10:00 e pelas 16:00. Aos poucos mais gente ia pegar meu café. A “armadilha” estava preparada.

Um belo dia, preparei fluxos de navegação de aplicativos Android e iOS, imprimi cada interface numa folha A4 e grudei todos, ordenados, na parede exatamente ao lado de onde eu sentava – e preparava o café. E chegou a hora: café pronto, logo chegaram os primeiros bebedores. As perguntas tão breve quanto se pode, vieram: “o que é isso?”, “vocês que fazem isso?”, “aqui vocês também estudam como o aplicativo é usado?”, “pra que serve isso?” e tantas outras. Tão informal quanto o café, eram dadas explicações. O primeiro e mais significativo passo foi dado. Depois foi só seguir 😉

E você? Já se deparou com esse tipo de desafio? Como procedeu?

Design Shot! #14 – Sobre os melhores designers

“Os melhores designers são os que sabem incutir aos seus projetos um nível de erudição maior do que seria exigido apenas para cumprir minimamente o briefing proposto. O bom designer de livros costuma ser o gosta de ler. O bom designer de produto costuma ser o que se interessa por processos de fabricação. E assim por diante. O aprofundamento e o estudo atribuem ao trabalho uma densidade que o diferencia do comum” – Rafael Cardoso, no livro Design Para Um Mundo Complexo, Editora Cosac Naify.

“Chegou a hora do Design Thinking” ou “prá você que fica de mimimi na internet”

Mimimi

Um, dois, três, duzentos. Em poucos minutos. É assim que tenho visto o número de comentários e posts nas redes sociais principalmente sobre questões políticas, como a falta d’água que acontece aqui em São Paulo. É tão tentador reclamar de tudo, as vezes me pego envolvio com mimimizagens, também. Não tenho os números nem pesquisei cientificamente a respeito, mas posso assegurar que são milhares de horas utilizadas para fazer comentários em portais de notícias e declarações mimadas no Facebook, Twitter, Whatsapp e quaisquer outras plataformas. São milhares, milhões de pessoas se juntando pra… RECLAMAR. E não é reclamar na porta da Prefeitura de São Paulo, no Palácio dos Bandeirantes ou qualquer outro lugar que poderia trazer algo em troca. É “na internet”. Sabe o que adianta fazer todo esse mimimi? Eu respondo, sem piedade nem pudor: NADA. É, isso mesmo, absolutamente NADA.

Do outro lado, há alguns anos, a cultura de inovação tem sido aproveitada por muitas organizações no Brasil e no mundo. Mudanças disruptivas aparecem. São diversos escritórios de extrema competência (como a Design Echos / Escola de Design Thinking, a Live | Work, a IDEO…) que implementem ferramentas para explorar a criatividade, o Design Thinking, a Confiança Criativa (ou Creative Confidence) nos mais diversos segmentos: para alavancar os lucros de uma empresa, para resolver o problema de um aparelho de ressonância magnética que faz crianças precisarem ser sedadas para realizar o exame, otimizar o tempo fazendo compras pelo smartphone em prateleiras impressas na estação do metrô, criando filtros de água para povos extremamente problemáticos da África e tantos outros. O Design Thinking une as pessoas das mais diferentes áreas (e só vai funcionar num esforço coletivo), potencializa as ideias de todos, quebra barreiras criativas e abre um novo universo de exploração para todos os envolvidos. E não importa se é para resolver um problema de uma igreja, de uma parada de ônibus, de um equipamento de pesca ou pra melhorar a experiência de alguém com algo, o Design Thinking está disponível e pode (ou seria DEVE?) ser usado.

Voltando aos mimimizentos digitais: Se 10% de todo esse esforço de mimimi fosse convertido em ações conjuntas com objetivo de propor soluções para o problema da água ou qualquer outro da cidade, tenho certeza que muita coisa boa nasceria daí. E seria feita, realizada, colocada em prática e os frutos colhidos. Mudaria a realidade que tanto incomoda tanta gente, bem diferente de toneladas de bytes jogados ao léu.

Aguardo ansioso pelas reclamações nos comentários 😉

Trilha Sonora #1: Pitanga em Pé de Amora

Inicio aqui uma nova categoria no DESIGNICES: A Trilha Sonora! A ideia é trazer inspirações musicais grátis, free e na faixa, em canções cheias de inspirações e referências, multidisciplinares como o design, naturalmente interessantes. Para começar…

Pitanga em Pé de Amora

Mp3 donwload grátisMúsicas autenticamente brasileiras, muito bem elaboradas que incorporam chorinhos, marchas, tangos, baiões, jazz… Tudo numa doçura e fluidez muito interessante de arranjos precisos e músicas que viciam pela qualidade,  pelas cadências e pelas narrativas, ao passo que nenhuma das faixas tem caráter apelativo ou refrões “chiclete”.

Download de Pitanga em Pé de Amora
(70,3MB)

Quem quiser saber mais sobre esse incrível grupo, pode acessar o site oficial.

E você? Tem alguma dica de som legal e legalmente gratuito pra inspirar nossos expedientes? Deixa aí nos comentários 😉

O botão VOLTAR do navegador é do Coisa Ruim, coisa do Demônio, do Tinhoso, do Cramulhão

Por diversas vezes em conversas informais, aulas ou palestras que assisti, artigos e livros sobre arquitetura de informação ou design de interface, o pobre do botão Voltar do browser atuava como um vilão. Se o usuário clicasse nele, o projeto digital estava capengando em organização, em uma boa arquitetura ou com problemas de elementos visuais não muito bem definidos. O termômetro do fracasso do projeto web (não necessariamente de todo, mas no que se refere à navegação) era o clique no botão Voltar.

As justificativas eram diversas, mas giravam em torno de algo como  “ele clicou no Voltar porque não encontrou como fazê-lo na interface do site”. Clicou no Voltar, tá errado e ponto final.

Estamos num momento das mídias digitais bem interessante, onde o que foi dito no começo dos anos 2000 que eram as verdades da época, podem e devem ser questionadas. Quando eu escrevi sobre os professores vintage me referia ao tipo de profissional que se apegava às antigas verdades e nunca mais queria abandoná-las. Com os avanços em banda larga, linguagens de programação, equipamentos é claro que as experiências mudam e, quem as executa, também. No final da década de 1990 foi quando aqui no Brasil tivemos uma explosão de provedores de acesso, contas de email gratuitas e tudo. Os usuários vem treinando o acesso à internet já tem certo tempo, sei lá, 10, 12, 15 anos. Nesse cenário inicial – e que se agora tem empresa que não entendeu que precisa de um arquiteto de informação, imagine na época – a internet era uma tremenda zona: o Macromedia Flash permitia explorar ao máximo a questão de interatividade com música e vídeos de um modo impossível em outras tecnologias. A banda larga dava conta do que se precisava. Muitas possibilidades se abriram e com elas, claro, muitos experimentos. Não havia um padrão, um formato, um design pattern tão bem definido. E nem poderia haver se a questão era experimentar, testar.

Botão Voltar do navegador

Uma nova maneira de conhecer conteúdos versus experimentos atrás de experimentos: claro que não tinha como o usuário aprender o geral nem criar um padrão mental de nada. Se o usuário não identificava relações comuns entre os projetos, ele apelaria – e nem sei se apelar é a palavra correta – para o que ele conhecia muito bem que era o próprio navegador. Por mais que os sites fossem diferentes em cores, tipos, navegação, o botão Voltar estaria sempre lá, esperando pra resolver o problema imediato do cidadão: voltar para a página anterior. Só isso. A navegação do Windows 8, por exemplo, é toda baseada no botão de voltar. No Android o botão voltar faz parte do hardware do aparelho. Ah, óbvio que a arquitetura de informação do projeto tem que ser bem feita para poder ser navegada sem a ajuda do botão Voltar, mas caso o usuário não utilize os meios criados e apelar para o navegador, não será uma heresia do projeto nem necessariamente um erro de projeto.

Talvez os reclamões da época que faziam do botão Voltar uma obra do capeta pensassem que o único projeto digital em questão era o site e não o todo, afinal de contas o navegador também é um projeto digital, tem sua curva de aprendizado e afins, tal qual o sistema operacional que o suporta. Olhar o todo é o segredo, que nem é tão secreto assim.

Um exercício muito legal é pegar literatura sobre cultura digital, design de interfaces, de interação de 8 anos atrás (ou mais) e tentar verificar com o que temos agora. Sempre gera um bom estudo e resultados as vezes bem inesperados.

E você? Conhece mais questões do design gráfico, digital ou tipografia erroneamente sustentadas como essa? Deixe nos comentários!
😉

LetterScapes: Instalações tipográficas nas cidades

Letterscapes

Essa linda publicação importada reúne referências muito legais de aplicações de tipografia no cenário urbano de algumas cidades. Diferente do que o título diz (global survey), não existem projetos dos quatro cantos do mundo. O foco está nos Estados Unidos e Europa, um pouquinhozinho da Ásia e o restante do planeta fica fora da pesquisa. Claro, as referências são muito interessantes e passeiam por prédios, parques, ruas, lojas. Grandes projetos indoor e outdoor. Alguns exemplos:

Letterscapes
Letterscapes
Letterscapes
Letterscapes
Letterscapes
Letterscapes
Letterscapes

Para ter ideia do calhamaço de páginas (352) que o livro tem, olha a comparação com a altura de um iPhone:
Letterscapes
Letterscapes

Infelizmente não documentaram o belo trabalho que a Aflalo & Gasperini Arquitetos fizeram para o Parque da Juventude, em São Paulo, nem as quase vernaculares expressões do fileteado (ou pintura de filete) de Buenos Aires.

Depois de todas as belas imagens do livro ainda tem algumas interessantes entrevistas com os arquitetos e designers que criaram as instalações, falando sobre o processo, os materiais, as ideias.

A versão disponível é de capa dura e custa em torno de U$ 50 na Amazon

 

O usuário é burro!

O usuário é burro!

O usuário é (muito) burro, o usuário não sabe nada, o usuário é uma anta, o usuário é um idiota. Essas e outras frases, infelizmente, estão presentes muitas vezes nas discussões dos processos de arquitetura da informação e design de interface (e todos esses nomes que foram dissociados e que eu nem sei quem faz o que…) e que mostram que ainda tem gente que não entendeu nada sobre design, projeto, usuário.

Antes de tudo, garanto que quem acha o usuário burro nem sabe nada sobre ele. Nesse ponto já temos dois erros: (a.) generalizar (b.) algo que não se conhece. O usuário é alguém que vai usar o projeto que fizemos. É isso, simplesmente. Se ele é letrado ou não, tem experiência ou não, habilidades mil ou não, não importa. Nossa função, enquanto designers, é fazer algo que o atenda, no caso dele ser o público alvo. Fácil, né? Mas ainda tem muita gente que não entendeu essa conta simples.

Cadastre-se em 100 formulários com problemas de programação e concorra a uma tv de 60 polegadas

Mensurar como um usuário se comporta quando há o “desespero” atrás de uma informação como essa que brinco no subtítulo acima não vale de muito. É algo que ele quer desesperadamente. Assim como comprar ingressos online, usar serviços do governo, Poupatempo e similares. No caso desse tipo de serviço:
1. É a única opção do usuário de executar uma ação, como tirar um CPF novo, por exemplo
2. É a única opção que tem pra ganhar algo ou para concorrer: pode esconder a informação que ele dá jeito de achar

Em outras palavras: se estiver bem planejado ou não, quase que tanto faz. O usuário vai atrás da informação porque não há outra escolha.

Como o mundo (ainda bem) não é feito apenas por frutos da publicidade e a informação e o conteúdo ainda é valorizado, temos uma diferença imensa, quase que oposta na hora de projetar conteúdos informacionais, culturais ou editoriais para os usuário. Primeiro porque ele pode ter caído nesse conteúdo diretamente por um resultado de busca ou mídia social. Segundo porque esse projeto pode não ser o único lugar que ele vai encontrar a informação desejada. Ou ele vai pra outro ou ele desencana e segue a vida, afinal de contas é “só informação” e não um carro zero ou Playstation 6. Lá deve ter a informação que ele deseja, não a que você quer que ele queira.

O projeto não deve ser feito pro cliente: deve ser feito para o usuário do produto do cliente

Algo que parece simples (mas não faço ideia porque não se faz) e no fim é complicado de entender é que o projeto deve atender quem usa, não quem faz, tampouco quem paga pra ser feito. Clichê de primeiro ano de faculdade. Em apresentações de trabalhos (seja em cliente ou palestra, evento) é comum rolar uma pirotecnia vendida por um showman sorridente. Bela porcaria. O usuário não sabe disso, não vê isso, nem acessa. Uma mesa escolar feita para crianças canhotas deve ser feita para crianças que, por acaso, são canhotas. E essas crianças tem um porte físico que é diferente em cada região do Brasil. Não é tudo a mesma coisa. E uma criança do sul, geralmente maior do que uma do nordeste, não é burra porque não cabe direito no espaço disponível. Da mesma maneira, aquele senhor de 89 anos que está num site de idosos e não vê o botão gigante que “era pra ser clicado” ou não consegue ler a Arial 9px não é burro. Aqui eu falo sobre projetos digitais, mas isso pode ser aplicado a uma embalagem, a um livro, revista, sofá.

Post em versão resumida

O usuário é quem usa, quem deve usar. Se o usuário não consegue fazê-lo, o problema não é dele, é seu.

 

A imagem veio do Library of Congress

Clichês Brasileiros [Gustavo Piqueira]

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Mais uma publicação, desculpe o clichê (ups!), imperdível do Gustavo Piqueira. Dessa vez a ideia foi compor uma narrativa visual, usando “apenas” clichês tipográficos, para contar a história do Brasil. E tem as caravelas, os portugueses chegando, o escambo com a população nativa, a catequização católica, a Bolsa do Café e outras muitas passagens nas 112 páginas.

A publicação é da Ateliê Editorial, que havia publicado em 2003 um fac-símile da coleção de clichês de D. Salles Monteiro, utilizada para a confecção desse livro. São mil exemplares (apenas) em tiragem única e as cópias são numeradas.

Algumas páginas para degustação:

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

A capa do livro tem uma lâmina de madeira impressa em serigrafia, adesivos e costura aparente.

Clichês Brasileiros, Gustavo Piqueira

 

Qual é a tua fonte?

Qual é a sua fonte?

O jornalista me respondeu que não podia me revelar a sua, já que lhe fornecia tantas informações valiosas;

O arquiteto me mostrou a que fica na Praça da Sé, na capital paulista, que enfeita a cidade e também é onde os moradores de rua usam pra se banhar quando a polícia não vê;

O geógrafo me levou até Águas de Lindoia (SP) e falou que a água lá é de ótima qualidade;

O eletricista apontou pro alto de um poste e contou que aquela era responsável pela energia elétrica do prédio onde eu moro;

O médico me perguntou qual dos lados da cabeça, direito ou esquerdo, que eu queria saber;

Que me desculpem os jornalistas, os arquitetos, os geógrafos, os eletricistas, os médicos, mas nenhuma dessas fontes é mais linda e interessante que uma Garamond, uma Caslon ou uma Bodoni. Perdão!

Ah, e antes que alguém me pergunte da fonte dessas informações, foi o Dicionário Aulete 😉