Já promovi discussões sobre os micreiros, regulamentação, e os motivos de se manter designer. Mas quais seriam os limites da nossa profissão? Até onde é digno, ético chegar? Comecei olhar para os arredores, para os profissionais à nossa volta e questionar seus comportamentos e perceber se eram ou não éticos. Quais seriam os limites?
Não é ético para um jornalista (e nem para o jornalismo como profissão, eu acredito) deixar de noticiar os escândalos que envolvem uma corporação simplesmente porque ela é anunciante da publicacão que ele trabalha. Ainda com os jornalistas, não é ético prometer nas capas das revistas dietas mágicas que podem trazer problemas de saúde para quem as segue, simplesmente porque a palavra “barriga” aumenta em 20% a venda de uma edição. Para um médico, não acho ético indicar um medicamento porque existe uma recompensa em dinheiro (uma comissão) pela venda do remédio indicado, nem fazer seus pacientes que tinham horário marcado esperarem uma, duas horas depois da hora acordada. Não é ético para um professor indicar livros só porque foram escritos por pessoas conhecidas ou porque a editora o suborna com dinheiro. Um apresentador de programa de televisão não é ético quando usa mulheres de enfeite nos palcos, como vasos de planta ou móveis decorativos. Enfim, se eu fosse escrever aqui tudo que não é ético, provavelmente esse texto só iria pro ar daqui muito tempo. Acredito que já tenha dado pra pegar o “tom” do que quero questionar.
O que é ético pra um designer?
Antes de tudo, o que é ética?
Pelo dicionário Michaelis online:
1 Parte da Filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana. É ciência normativa que serve de base à filosofia prática. 2 Conjunto de princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão; deontologia.
Pelo dicionário online Aulete, a definição é bem próxima:
1. Parte da filosofia que trata das questões e dos preceitos que se relacionam aos valores morais e à conduta humana. 2. Conjunto de princípios, normas e regras que devem ser seguidos para que se estabeleça um comportamento moral exemplar.
Agora sim, prossigo:
Não dá pra achar que tudo que fizemos é lindo, perfeito pro mundo, né? Fazer propaganda de produtos que prejudicam à saúde? Criar folderes, santinhos, vídeos para políticos com sérios problemas judiciais? Ajudar as vendas de comida rica em gordura trans, colesterol, açúcar? Isso tudo é “legal”? Não, não vou aceitar a justificativa do tipo “eu só fiz a propaganda, compra quem quer” que isso não cola. Vivemos num mundo que as pessoas acreditam cegamente nas revistas, nos jornais e na televisão. Quando você participa de algum desses trabalhos tenha certeza que muita, mas muita gente compra o produto porque viu o comercial. E sim, a culpa também é sua. Fez campanha pra vender carro chinês de péssima qualidade que tenta se apoiar em seis nos de garantia pra fingir que é bom? Fez diagramação de livro com ideal nazista? Fez a placa que deixou a criancinha com vontade de se entupir de lixo no fast food? Então tem culpa. Mais gente obesa? Você participou. Idiotas batendo em gays na Avenida Paulista? Você participou.
Ok, aí podem vir as justificativas (com razão) que seria um trabalho impossível se o designer (e todos os membros da equipe preocupados com a ética) analisar todas os setores da empresas que fazem parte da carteira de clientes da agência, escritório, editora. Claro, isso seria impossível. Mas não é disso que falo. Me refiro àquelas empresas descaradas, que todo mundo sabe que não valem nada e fingem que tá tudo certo. Aquelas que estão em escândalos ambientais, aquelas que usam trabalho de colheita escravo. E fazer capa do CD e DVD pro pagodeiro-traficante? Seria ético promover que as pessoas consumissem esse tipo de coisa? E fazer a marca, a embalagem e o site de uma empresa de tabaco?
E nem entrei nos méritos da ética para com fontes tipográficas, fotos, vetores e ícones roubados. Deixo esses assuntos pra outro texto.
Tudo bem, nos comentários poderão aparecer justificativas como “eu não me preocupo com isso, só quero entrar, trabalhar, voltar pra casa e ter o salário no final do mês”. A história do design nos mostra que nossa profissão ajudou com uma baita força o consumismo louco, a cultura de massa, o capitalismo. E isso tudo, pra mim, não tem mais cura. Talvez dê para ajustar aqui e segurar um pouco acolá, mas sanar, não. E se as consequências dessa falta de ética de hoje representarem problemas de mesma grandeza ou maiores no futuro?
Nossa, acho que já usei interrogações demais nesse texto. Então coloco a última: como você vê a ética na profissão do designer?
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