Tenho me incomodado com alguns padrões visuais adotados pra web que não são questionados, nem revistos, sobrevivem ao tempo e ninguém faz nada. Já questionei os grids de 960px algum tempo atrás e agora vou colocar em jogo alguns outros desses hábitos gráficos aparentemente inexplicáveis:
Wikipedia

Decerto que é um dos projetos colaborativos que mais me agrada. Confesso que quando ouvi falar de Wikipedia eu jurava que não daria certo e ainda bem que me enganei. Hoje podemos “confiar” mais em seu conteúdo, checar as fontes das informações e ter um aprofundamento maior sobre os assuntos. Por falar em assuntos, tem absolutamente TUDO lá e está sempre bem rankeada nos buscadores. Além de ser esse projetão bacana, a Wikipedia é livre e também foi replicada em diversos outros sites, mesmo funcionamento, mesmo layout, pra servir como glossário, guia, manual etc. O que ninguém muda é o layout da Wikipedia. Talvez, em 2001 quando foi criada pros monitores de resolução 800×600 ou 1024×768, funcionasse. Hoje, com quase 2000 px de largura, os textos ficam ilegíveis. Quase QUARENTA palavras por linha: certeza que o eterno Jan Tschichold morreria do coração ao ver isso.
Orkut
Acho um projeto revolucionário (no seu tempo), acredito que por conta dele muita gente aprendeu a navegar na internet e ter consciência das mídias sociais. Já forneceu muita audiência pra grandes e pequenos sites. Me lembro que o primeiro topo de acessos que um site sobre São Paulo (que eu trabalhei por 2 anos) foi através do Orkut, quando rolou uma discussão entre fãs do Radiohead e do Iron Maiden por causa de uma matéria do site. Discussões nas comunidades apontavam o link pra matéria, negando, questionando, xingando, elogiando, tudo. O Orkut ainda é bem significativo (por incrível que pareça) pra muitos sites de grandes empresas, mas aos poucos ele perde espaço pro Twitter e Facebook, principalmente. Diferente do que muitos pensam, não dá pra simplesmente abandonar o Orkut porque gostamos mais do Facebook ou porque, redundantemente, ele foi “orkutizado”. De qualquer modo essa grande comunidade nunca foi boa referência de design. Ainda mais agora, totalmente perdida, tentando beber da água do Facebook (que é visualmente limpo, direto) mas misturando animações desnecessárias, títulos e fotos que gritam com o público. Se funciona para o seu público? Não sei… mas sei que o visual não me agrada nem um pouco.
Always Beta
Uma das frases que mais sinto medo é “Sobe assim mesmo, depois a gente arruma…”. Antes de qualquer coisa: Eu acredito no Always Beta, quando ele é feito de modo inteligente. O que seria um modo inteligente? Bem, imaginem um jornalista chegar com um texto sem acentos nem pontuação e tudo em caixa alta. Alguém diria “sobe assim mesmo depois a gente arruma”? Com certeza não. Acredito que o Always Beta pra design seja do mesmo jeito: Não subir qualquer coisa indepentende de como esteja. Acredito no mínimo de dignidade de um layout, mesmo que seja o “mínimo do mínimo”, mas que atenda uma demanda sem passar vergonha ou trazer problemas diretos aos usuários.
Twitter
Esse microblog mudou muita coisa na vida de muita gente. Hoje vejo tweets incontroláveis saindo dos celulares nos cafés, restaurantes, parques, ônibus, metrô, todo lugar. Cartões de visita que ganharam um “campo” a mais com o username do twitter. E tem gente que vende tuitada, que retuita tudo dos famosos, que sabe das novidades por conta dos #TTs. É como uma grande mesa de bar onde tem gente conversando de tudo. Além disso, o acesso ao API do Twitter proporcionou que desenvolvedores fizessem infinitas ferramentas pra ele. Aí começa o paradigma. O Twitter tem uma cara infantil, fofinho, como a Pucca ou a Hello Kitty. Até aí tudo bem, porque nem sei se passou pela cabeça dos criadores que seria tamanho sucesso. Mas a maioria esmagadora de ferramentas pro microblog (e as vezes até ferramentas que não se limitam a ele) usa a mesma identidade dele, não importa pra que sirva. O logo é com uma tipografia similar, com aparência de cópia mal feita. As cores sempre em tons de bebê. Projeto gráfico pra quê, né? Pra mim parece que junto com a API as equipes também se davam o direito de se apropriar do visual da ferramenta. Um ótimo exemplo disso é o TwitPic:

Tem o TwitCam, que além de problema de projeto gráfico também tem problema com o nome. Se “tweet” é um “pio”, um texto curto como se propõe, como poderíamos ter isso numa transmissão de vídeo de uma hora?

O Foursquare, que não usa os mesmos elementos do Twitter no logo, mantém os tons bebê nos layouts:

Ainda bem que tem gente que foge dessa armadilha, como o Instagram:

Além do problema de falta de projeto existem também a amarra com o do Twitter. Nessas últimas semanas o Twitter ficou com a home bem séria, com mais cara de empresarial:

E agora, o que farão os “chupinhadores de layout”? Manter o antigo ou mudar tudo pra ficar igual ao novo? #fail
HTML 5
O HTML 5 é bem interessante, vai permitir mudanças visuais na web como um todo, mas só será totalmente homologado daqui uns anos. O problema é que agora tudo “tem que ser HTML 5″ (mesmo que seja apenas um HTML 4 + javascript e tratado como 5 como vi algumas vezes). Além de testar a linguagem, não consigo entender o motivo dessa necessidade tão doentia. Fiz o redesenho de um grande portal de tecnologia que estaria integrado com um monte de coisas, na nuvem e complexo banco de dados e todos queria fugir por tudo do HTML 5:
“- Enquanto não tiver devidamente homologado eu não me meto nessa, não. Não vou arriscar meu conteúdo só pra ter HTML 5″, dizia o especialista do site.
Muitas vezes uma animação simples feita em uma tarde no Flash resolveria o problema e teria sua manutenção muito mais fácil. E levaria uma tarde, invés de uma semana. Claro, as decisões da Apple pro iPhone, iPod e iPad não rodarem essa ferramenta da Adobe pode influenciar totalmente nessa decisão. Mas não estou defendendo o HTML 5, nem o Flash, nem nada. O que defendo é o uso consciente disso tudo, se é ou não pertinente, se vale ou não a pena fazer em HTML 5. Se for pra um público Classe C ou D, se for pra rodar em escolas públicas do interior do interior de algum estado, que talvez não tenham um browser devidamente atualizado e não tem a necessidade de ver em gadgets da Apple, não teria porquê fazer em HTML 5. Tudo depende, como sempre, do público alvo. Daqui uns anos, como a parte que falo do Orkut, esse texto do HTML será descartável, mas até lá brigo pelo bom uso das ferramentas. O ferramental não pode ser um paradigma, precisa ser solução.
Facebook

O Facebook mantém uma linha visual bem simples e bastante eficaz. Azul, branco e preto, se encaixa em quase todos os projetos, já que essas cores foram absorvidas como algo comum na experiência dos usuários. O “quase todos os projetos” é algo interessante de questionar. Já vi o Facebook reclamar quando houve uma tentativa de mudar um mínimo detalhe do box de “curtir” a página. E quando o azul simplesmente não for algo bem-vindo? Me lembrei da rivalidade entre os times de futebol Sport Club Internacional (também conhecido como Inter de Porto Alegre) e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. O primeiro, apelidado de Colorado, usa vermelho e branco pra tudo. O segundo compartilha das mesmas cores do Facebook. Será que o Internacional usaria um box do Facebook em seu site? Duvido. TUDO é vermelho lá:


Nesse caso, ou o Facebook se deixa modificar ou o site abre mão da identidade pra ter o serviço de compartilhamento que essa mídia social proporciona. Quem vence? Não sei, mas o design pode perder.
…
Esse post foi inspirado no material que produzi pra exposição do tema “Como fugir das fórmulas prontas de design nas redes?” na faculdade Cásper Líbero, no evento de lançamento do ebook “Para entender as mídias sociais” (baixe grátis), organizado por Ana Brambilla (veja seu blog | siga no twitter @anabrambilla). As fotos a seguir são do evento e foram gentilmente cedidas pelo fotógrafo Pedro Brum de Mello (pedrobmello[arroba]gmail.com) :


E vocês, o que acham? Quais outros paradigmas gráficos do design de web podemos citar? Deixem nos comments!