design, livros, tipografia e referências

Archive for April, 2010

Design não tem regulamentação. Ainda bem!

Esses dias li a indignação de alguns designers por conta da regulamentação da profissão de astrólogo ou algo assim. Será que eles consultavam os seus mapas astrais pra fazer as cores do layout? Bah… E entramos de novo em discussões sem fim, como a dos designers e micreiros.

Sério, eu sou extremamente feliz do jeito que está e farei tudo possível pra profissão de designer NÃO ser regulamentada. Antes de colocar meu nome na boca do sapo, deixe-me explicar direitinho.

A ideia é obrigar o sujeito ser formado pra exercer a profissão? Então ferrou. Formação superior atualmente não significa nada. Quantos formados péssimos você conhece? Qual a garantia que temos da formação? O melhor e o pior aluno de cada curso tem o diploma. Fora o fato de que não falta são cursos porcos de terrível qualidade em instituições com professores de conhecimento questionável (pra não falar sem conhecimento algum). E eu asseguro que conheço tantos designers formados que não têm qualidade quanto designers não formados com qualidade bem interessante. Que tal se a gente continuar se apoiando em portfolios pra contratar os serviços de um designer? Quase nunca falha. E a formação que se lasque.

Vamos pensar na sequência de fatos:
1. Design passa a ser profissão regulamentada
2. Passa a ser OBRIGAÇÃO ser formado
Nesse momento, além de dezenas de faculdades porcas aparecerem e “prepararem” o profissional para exercer a profissão (sem ajudar em nada pela causa da regulamentação), todo mundo vai TER que fazer design. Diploma passa a ser importante. O legal de um curso é ter pessoas interessadas em aprender, não em se formar e “se livrar logo”. Se hoje temos um bando de vagabundo entrando nos cursos porque acham que vão ficar sem fazer nada e terem uma megaideia que revoluciona o mundo, achando que design vai formá-lo como artista, que design é uma profissão que não precisa ler, nem nada, tentem pensar como seria se além disso o design fosse obrigatório pra exercer? Pensem no número de pessoas que fariam por obrigação.
3. Mais desvalorização do profissional
Estaremos cercados de designers apoiados em diploma, formados, que poderão trabalhar como os nossos micreiros o fazem agora. Mas está regulamentado. Grande coisa.

Ainda acha que regulamentar resolve? Nem a ADG briga por isso. Sei que isso dá “pano pra manga”.  Comenta aí, vai? :)

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Mc Donald’s: Design para reposicionar

Antes de começar, gostaria de deixar bem claro que todos os estudos que vou falar são de percepção de consumidor (e designer) e não foram baseados em leituras de reposicionamento de marca nem nada. Como entre o planejamento de uma mudança e o que o público entende pode haver uma abismo gigante de diferenças, fiz questão de não procurar nada dessas referências pra não influenciar meu posicionamento e análises.

Bem, tudo começou numa palestra que fui da type foundry inglesa Dalton Maag que, entre outras coisas, falou rapidamente da familia tipográfica que eles criaram pro Mc Donald’s, que precisaria ser bem estreita pra poder escrever bastante coisa e também tinha que ter uma ideia de natureza. Fui conferir de perto e de fato, conseguiram:

Copo com tipografia referenciando a natureza
Comecei a analisar outras características dessas (não tão) novas embalagens dos produtos e notei que se trataria de de uma ação de reposicionamento. Aí fiz um rápido feedback do que acontecera com o Mc Donald’s nos últimos anos:

Bem, era muito comum nossos pais, tios e todos os outros que têm atualmente mais de 50 anos falar que a comida de lá parece feita de plástico, tem “gosto de química”, que é muito artificial. Além disso, em 2004, o filme Super Size Me detonou a imagem do Mc Donald’s, mostrando tudo de ruim que poderia acontecer se você comesse lá muitas vezes num curto período. Depois disso era um tal de colocar as informações nutricionais no verso da lâmina (aquele papel que vem em cima da bandeja), depois eles colocaram essa mesma lâmina, só que com essas informações viradas pra cima, destacavam chamadas que diziam ser possível encaixar as refeições do Mc Donald’s dentro de uma dieta saudável, começaram a vender maçã, saladas, wraps “leves”… Imagino que tudo isso pra limpar a imagem de junk food, que você poderia ser saudável comendo no Mc Donald’s.

Enfim, e quanto aos ingredientes dos produtos? Talvez faltasse ainda ressaltar que tudo que lá é vendido é feito com “ingredientes naturais” mesmo, frescos, como você os vê na sua casa e que são fortalecidos pela tipografia da Dalton Maag. Repare nas laterais da caixinha dos sanduíches, nesse caso o Big Mac:

Embalagem Big Mac

Embalagem Big Mac

Note como tudo é como você vê na sua mesa de casa. Queijo, alface inteira, picles sendo cortado, cebola com casca.

A batata, que por mais que seus pais (ou você mesmo) tentem e nunca farão igual, tem uma imagem de uma batata crua sendo descascada. Qual outro lugar, além da sua casa, você vê isso? Nenhum, né? Confira na imagem:

Batada descascada na embalagem das Mc Fritas

Além de tudo isso outra família tipográfica entra nas embalagens, como anotações pessoais, algo bem próximo do consumidor:

Tipografia manuscrita na embalagem das Mc Fritas

Embalagem Big Mac - Detalhe da tipografia manuscrita
E não somente as embalagens dos produtos foi modificada. Repare que no site o apelo é o mesmo: Fotos dos ingredientes frescos, in natura, num fundo de papel meio reciclado/pessoal e elementos que lembram até o velho caderno de receitas da sua avó, como os ingredientes impressos e anotações ao redor:

Site do Mc Donalds

E você, acha que funcionou o apelo ao design para reposicionar a marca e os produtos do Mc Donald’s? Acha que eu viajei muito nas interpretações? Vamos continuar nos comentários, então.

Postado por Rogério Fratin em Designice,Embalagem,Tipografia e tem (14) Comentários

AnalfaBetismo, Cidadania e Design

Acho que todo mundo que começa a estudar design sonha em fazer trabalhos importantes pra grandes empresas, anúncios premiados, revistas incríveis, livros memoráveis. Uma das funções do designer é tornar a vida mais fácil, desde mais fácil pra ler um texto como quanto para fazer alguém se divertir mais no caminho pra casa, seja de carro, metrô ou de bicicleta. É pegar um problema e solucioná-lo ou então, transformá-lo em outra coisa. E olha que de problemas estamos bem servidos, não?

Sempre me deparo com professores de mil coisas, publicitários, marketeiros e arquitetos em projetos junto de ONGS, OSCIPS, comunidades carentes, crianças com dificuldades e muitos outros focos de problemas sociais, mas vejo poucos ou nenhum designer fazendo isso. Umas semanas atrás vi uma menininha de uns 8 anos, extremamente inteligente, lendo um livro numa grande Bookstore aqui em São Paulo. Ela usava óculos muito grossos e lia com o nariz encostado no papel, literalmente. Pensei o que poderia ser feito para que ela pudesse ler mais e melhor e amenizar suas deficiências. Aí pensei quantos problemas sociais poderiam ser menos agressivos se nós, designers, aceitássemos gastar um tempinho da nossa semana dedicados a essas causas.

E valeria força pra ajudar de qualquer modo. Para combater o analfabetismo, aumentar o contato de comunidades carentes com a arte, melhorar a caligrafia das crianças, ensinar desenho, pintura, fotografia, oficinas de design (e pode ser coisas simples, como as que tem no livro Eu Que Fiz da Ellen Lupton).

Afinal de contas, acho que recrutar dezenas de pessoas e ensinar a batucar é legal, mas já deu, né?

Ok, ok, talvez seu negócio não seja algo tão autruísta assim. Mas você pode pensar numa tipografia que seja mais fácil pra criança aprender a ler ou então numa que gaste menos tinta. Talvez possa pensar numa forma não-eletrônica que ajude com a economia de papel. Ainda você pode vender um projeto bacana para entretenimento em transporte público pro governo, sei lá.

Idependente de ser mais ou menos autruísta, acho que é de total valia se dedicar em projetos mais sociais. E é esse meu planejamento para quando eu terminar minha pós-graduação. Alguém mais se habilita? Ideias? Referências? Links?

Postado por Rogério Fratin em Designice e tem (4) Comentários